Um bilhete pra Geraldo.

Olá Geraldo, tudo bem?

Não nos conhecemos pessoalmente ainda, meu nome é Melina Hickson, sou produtora de música há 15 anos em Recife. Sou empresária de um artista pernambucano que não sei se você conhece, o nome dele é Siba.  Também sou diretora de uma convenção internacional de música e tecnologia que está indo agora para a sexta edição, o Porto Musical.

Eu conhecia você de nome quando Eduardo assumiu o Governo. Várias pessoas chegaram para falar que você tinha o entendimento do assunto da economia criativa, tanto que ao assumir a secretaria de desenvolvimento econômico havia levado o tema pra ser desenvolvido pela pasta.

Geraldo então, agora que você será prefeito do Recife gostaria de te mandar esse primeiro bilhete para pedir que você olhe com atenção para a pasta de cultura, que não a use apenas como uma troca política e se tiver que ser assim, que escolha uma pessoa sensível, com visão além do óbvio, aberta, consciente, com noção do tamanho da produção que temos e da especialidade dela. Gostaria de propôr que o  orçamento anual da  cultura não seja esvaziado nos 4 dias de carnaval deixando o resto do ano sem dinheiro para consolidar projetos de sustentabilidade para o setor.

Sugiro que a secretaria tenha um planejamento anual para a cultura, buscando suportar e otimizar iniciativas que já existem da sociedade civil. Sugiro que a PCR envolva produtores, artistas e empreendedores da cidade nas discussões desse plano, de um jeito mais objetivo e menos político, olhando para o desenvolvimento de um mercado interno e olhando a difusão e a exportação como prioridades. Sendo assim, a Rádio Frei Caneca é uma urgência, pois já é lenda.

Estou aqui para contribuir no que for preciso, enquanto entender que de todas as metas, a principal é fazer existir executiva e inteligentemente a pasta da cultura.

As indústrias criativas e uma nova oportunidade de mercado

Há alguns anos temos vivido um processo sem volta. O processo que chamo de Processo C: compartilhamento, cooperação, contribuição.  Neste processo temos trabalhado mais perto uns dos outros, as parcerias são desenvolvidas nos formatos mais diferentes, a cooperação profissional se dá em vários níveis, independente das distâncias. Mas isso ainda é feito de um jeito um tanto quanto informal, não remunerada e não reconhecida.

Paralelamente a isso, vivemos num tempo onde certos setores da economia antes ignorados estão em alta e contribuindo definitivamente para o PIB das cidades, dos estados. São os setores chamados hoje da “Indústria Criativa”, música, cinema, games, moda, gastronomia, animação, literatura, por aí vai…

Eu sou um funcionário dessa indústria e a possibilidade de você que lê esse post também ser, é grande.

As convenções são engracadas. Nossa idéia de “indústria” sempre foi daquele lugar onde tudo o que é fabricado ali tem algumas características básicas: produção em série, em larga escala e o resultado alcança sua perfeição quando todos os produtos saem idênticos uns aos outros. A criatividade passou longe de ser uma característica disso. Aí, chamar de Indústrias  Criativas esses segmentos é, por si só, a ruptura de um significado, a ironia das convenções e traz em si um paradigma digno dos novos tempos, onde tudo o que é diferente pode estar definitivamente junto e misturado.

Investir na criação de polos de indústrias criativas pode ser um novo e rico recorte da economia tradicional. Registrar os números desses setores é muito importante para conseguirmos mais atenção de outros como planejamento, saúde, previdência social. Somos vistos por estes apenas como informais, seremos sempre “terceiro setor”?

Pernambuco é um estado pioneiro nesse tema. Não faltam visionários que há anos trabalham nesse ambiente. Silvio Meira, do seu c.e.s.a.r, Geber Ramalho, da academia, Claudio Marinho, de seu Porto Marinho, Chico Saboya, do Porto digital e outros, que, graças a Deus, tem ferramentas e algum subsídio para colocar em prática alguns projetos nessa área.

No Porto Musical, Geber Ramalho vai fazer a primeira apresentação oficial do projeto DELTAZERO, Base Recife de Indústrias Criativas. Um pool de pessoas, idéias e empresas que ao se aglomerarem em torno de um mesmo ambiente podem iniciar um processo de cooperação e parceria profundo, extremamente pró-ativo e que visualiza em primeiro lugar o mercado consumidor. E não é só o mercado brasileiro não, é o estrangeiro, especialmente. O DELTAZERO quer colocar um monte de gente para trabalhar junto, cada um na sua área, para finalização de produtos e servicos extremamente atraentes para certas demandas de mercado.

É legal demais pensar nos cineastas pernambucanos chamando os músicos daqui para fazer suas trilhas, e os profissionais de animação para criar as aberturas de seus filmes e que a galera dos games, em vez de comprar as trilhas brancas, encomendem peças para os músicos. Sensacional. Um novo modelo de atividade, um futuro atraente para os criativos das mais diversas áreas, uma possibilidade real de otimização de espaço, de idéias e a prova final que esses segmentos são auto-sustentáveis e que podem em breve alcançar uma posição de destaque na economia mundial.

Prólogo: Durante o Porto Musical será lançada a FNEC- federação Nacional de Economia da Cultura, com o olhar imediato para asindùstrias Criativas. Vamos nessa?

‘Só depois que atingir toda a massa’

Onde o músico quer chegar? Talvez, a resposta mais sensata seria: na trilha da novela das oito. E assim vivo na contradição: como eu, que não vejo novela nem acompanho BBB torço para que meus artistas toquem no horário nobre? Qual o limite para se chegar à ascensão sem perder a alma? Quanto e como pagar para tocar na rádio? Como fazer a música chegar à massa sem que vire mais um rótulo da cultura de massa? Ou, simplesmente, como ser respeitado pelo trabalho independente?

São perguntas que me encasquetam o juízo. Mais ainda depois desta semana em que, pela segunda vez, a Orquestra Contemporânea de Olinda tocou antes de Pitty num festival. No intervalo das músicas da Orquestra, fãs frenéticos da baiana gritavam: ‘Pitty! Pitty! Pitty!’.
A resposta foi música: ‘Toda Massa’, letra de Tiné que fala exatamente dos fenômenos musicais que entram em nossas casas pela TV e pelas rádios.
Creio que poucos daqueles jovens entenderam o recado.

O importante é que foi dado. Mesmo que o som do nosso show tenha sido 8 vezes inferior ao de Pitty; que em nosso camarim tivesse faltado o suco de frutas e a cerveja gelada; ou que nossa câmera tivesse sido tirada do melhor local porque o técnico de Pitty queria afinar os instrumentos bem ali. Chegou na TV Globo, tapete vermelho. Cabe ao artista e equipe enrolar o tapete e pisar firme e descalço.
“Eu não vim de terra alheia. Trago uma estrela no peito. Como o sol ela alumeia” (Bongar)