Um bilhete pra Geraldo.

Olá Geraldo, tudo bem?

Não nos conhecemos pessoalmente ainda, meu nome é Melina Hickson, sou produtora de música há 15 anos em Recife. Sou empresária de um artista pernambucano que não sei se você conhece, o nome dele é Siba.  Também sou diretora de uma convenção internacional de música e tecnologia que está indo agora para a sexta edição, o Porto Musical.

Eu conhecia você de nome quando Eduardo assumiu o Governo. Várias pessoas chegaram para falar que você tinha o entendimento do assunto da economia criativa, tanto que ao assumir a secretaria de desenvolvimento econômico havia levado o tema pra ser desenvolvido pela pasta.

Geraldo então, agora que você será prefeito do Recife gostaria de te mandar esse primeiro bilhete para pedir que você olhe com atenção para a pasta de cultura, que não a use apenas como uma troca política e se tiver que ser assim, que escolha uma pessoa sensível, com visão além do óbvio, aberta, consciente, com noção do tamanho da produção que temos e da especialidade dela. Gostaria de propôr que o  orçamento anual da  cultura não seja esvaziado nos 4 dias de carnaval deixando o resto do ano sem dinheiro para consolidar projetos de sustentabilidade para o setor.

Sugiro que a secretaria tenha um planejamento anual para a cultura, buscando suportar e otimizar iniciativas que já existem da sociedade civil. Sugiro que a PCR envolva produtores, artistas e empreendedores da cidade nas discussões desse plano, de um jeito mais objetivo e menos político, olhando para o desenvolvimento de um mercado interno e olhando a difusão e a exportação como prioridades. Sendo assim, a Rádio Frei Caneca é uma urgência, pois já é lenda.

Estou aqui para contribuir no que for preciso, enquanto entender que de todas as metas, a principal é fazer existir executiva e inteligentemente a pasta da cultura.

Olhando para aquele imenso mar sem fim – Cabo Verde

Estive pela primeira vez na África. Uma África bem latina, eu diria. Fiquei uma semana em Cabo Verde a convite do Kriol Jazz Festival e do Ministério da Cultura de lá. A sensação de estar em casa foi muito grande. Fui para a Ilha de Praia, capital do País, que é formado por 10 ilhas. Praia tem o jeito do Brasil, a começar pelo nome, um Brasil mais árido com certeza, mas, as pessoas, as casinhas, é como andar nas ruas das cidadezinhas do interior pernambucano.

Olhando para aquele imenso mar sem fim, almoçando com mais outros profissionais de música do mundo que também estavam comigo, ouvi a frase que fez todo sentido para justificar minha sensação de familiaridade com um lugar que nunca fui. O Ministro da Cultura, o senhor Mário Lucio, grande músico e compositor local, disse: ” olha pra frente Melina ” e quando olhei pro oceano , ele continuou: ” Fortaleza tá exatamente aqui em frente, há 3 horas de distância voando”. Eu estava perto demais do Brasil, mais do que imaginava, depois de passar quase 8 horas num vôo pra Lisboa, mais 10 horas em conexão para mais 5 horas de vôo para Praia, tudo pareceu tão longe, que perdi a noção geográfica. Eu estava mais perto do Brasil do que imaginava, mas, podia sentir.

Foi dali, daquele pelourinho da cidade velha, onde eu almoçava, que saiu o primeiro navio com os negros africanos para serem vendidos no Brasil. Era dali que partia aquela dor com destino ao meu País. Foi o meu País que acolheu toda a dor e contribuiu indiretamente para aumentá-la. Tudo com a incrível destreza de quem colonizou os cabo verdianos e os brasileiros. Os portugueses estão infinitamente mais presentes lá do que cá, seja na comida, seja na forma do acento português falado. Mas, assim como o Brasil que praticamente inventou outra forma de falar português, os caboverdianos falam entre si a língua mais interessante que já ouvi, o criolo. Eles falam o criolo no dia a dia, mas, na hora de escrever, escrevem em português. Ao ouvir o criolo, me pareceu ainda mais com o interior de Pernambuco. E, imagino, outros interiores do Brasil, mas, é o daqui que não só entendo e conheço como já vivi nele, “pro mode que” (diria o caboverdiano falando em criolo, ou diria meu primo de Pau Santo) vivi minha infância no agreste mais remoto de Pernambuco. Realmente o criolo me lembra meus tios e primas, e avós do interior falando…

Os caboverdianos tem o Brasil em alta conta, altíssima. O Brasil tem um acordo de cooperação no âmbito da educação com Cabo Verde, e entre  10 caboverdianos que conheci, 8 estudaram no Brasil, Fortaleza, Rio de Janeiro, Campina Grande…Eles amam o Brasil. Mas, dá pra entender porque: somos mesmo muitos parecidos, desde o jeito, tão alegre, animado, guerreiro, auto-suficiente, orgulhosos de suas raízes, de sua língua, de sua história. O Cabo Verde é um país pobre, mas, são muito organizados e as coisas parecem funcionar bem e o que não está bem, está sendo estudado para melhorar. É triste perceber no País ainda as dores da imigração, o País  ainda precisa muito de doação de seus cidadãos que moram fora, principalmente nos Estados Unidos e Europa.

Mas voltando ao tanto que parece com o Brasil….

A música caboverdiana tem uma força, uma melodia enorme. A Morna, parece muito ao fado, mas, além dela,  existem tanto outros ritmos locais. Os músicos existem aos milhares, e não são fracos, são músicos acima da média, um virtuosismo de impressionar, principalmente tocando violão, violino, ou viola, qualquer instrumento de corda. A formação são de três pessoas muitas vezes, um canta e dois tocam, ou dois tocam ou três tocam. José da Silva, um dos mais importantes produtores de música do Cabo Verde, responsável pela descoberta e por toda a carreira de Cesária Évora, e produtor do Kriol Jazz Festival, completa minha pergunta intrigada: “vendo os grupos daqui você percebe que não se precisa de um grupo com mais de 4 pessoas,  se é bom, não precisa de mais” . Bom, depende. E Jô, como é conhecido por lá, sabe disso. Mas que eu fiquei lembrando das gigantescas bandas pernambucanas fiquei…

Só vi instrumentos de corda nos showcases do Fórum, então,  agoniada, perguntei o porquê e a resposta veio do Charles, outro caboverdiano que entende tudo da história e é capaz de explicar com a maior tranqüilidade em 4 idiomas a mesmo coisa: ” não existem tambores aqui, porque Portugal proibiu as pessoas de tocarem tambor, pois era uma forma dos negros de comunicarem sem usar as palavras. Foi por isso que Cabo Verde também desenvolveu a técnica de fazer música com seu próprio corpo, batucando com as duas palmas da mão no centro do peito” . Bom, entre os dias de viagem entre Cabo Verde e o Brasil, num navio cheio de dor, essa proibição ficou para trás, a chegada no Brasil possibilitou o tambor voltar pras mãos dos seus tocadores e a nossa música brasileira é cheia de amor disso e por isso. A colonização portuguesa nos dois países pode ter sido diferente, mas, uma coisa nunca mudou: a música, seja tocada pelo tambor, ou no peito e na raça, ela sempre foi uma das melhores formas de se comunicar …

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Quero agradecer a algumas pessoas por esta viagem:

Mário Lucio Sousa, Ministro da Cultura do Cabo Verde , por achar que eu posso contribuir em alguma coisa para seu projeto de música para o seu País, e também pelo carinho, explicações e ótimos almoços.

José da Silva, pelos ensinamentos  que ele me passou, mesmo sem saber…Jô, quando crescer quero ser igual a você.

Ana, Nadia, Cristiane, Charles e Débora pela atenção e carinho

E a delegação que esteve comigo nessa : Christoph Borkowsky, Christine Semba, Erica Smith, Maarteen, Rafael Barcot Tintor, Dominique, Corinne, Brahim El Mazned… Espero encontrá-los de novo lá, ano que vem, mas, desta vez vou pegar o vôo Fortaleza-Praia, a bordo da TACV .

I hear and I forget. I see and I remember. I do and I understand.

De um despretencioso cafezinho sobre a cultura pernambucana, o maracatu e Nazaré da Mata, a um dos maiores desafios da Fina. A idéia era só conhecer Siba, mas, o Tropenmuseum acabou conhecendo a Fina Produção como um todo.

Depois de receber o perfil do profissional que eles procuravam, li aquelas páginas algumas vezes. Na primeira, achei que tinha na minha frente um tratado sobre o que é ser um produtor do mais alto nível. Na segunda vez, já achei que não poderia dar conta, mas, na terceira vez tava lendo em conjunto com minhas parceirinhas na Fina, Pérola e Isa, e os olhos de ambas brilharam e veio então a decisão: porque não?

A Fina está, desde então, fazendo a produção da exposição Mix Max Brazil e é a representante local do Tropenmuseum Jr. para todos os assuntos do projeto.

Este museu fica em Amsterdam, é especializado em crianças entre 6 e 13 anos e depois de ter realizado algumas exposições sobre China, Mumbai, Ghana, Bolívia, Austrália, entre outros, resolveram dedicar 4 anos de suas vidas ao Brasil. Sim, 4 anos, um e pouco de produção e pesquisa e dois e meio de exposição. A Mix Max Brazil ficará em cartaz entre 2012 e 2015. Neste período, cada criança que entrar no museu entrará num pedaço do Brasil, a forma como o espaço inteiro é vestido é impressionante e o mais bacana do conceito é que, apesar de ser num museu, nada é estático, nada é parado. As crianças fazem uma imersão no ambiente brasileiro, com foco em Pernambuco. De cozinhar tapioca a dançar, tecer, fazer xilogravuras, tudo elas devem experimentar para que seja algo memorável. O slogan do Museu é: “I hear and I forget. I see and I remember. I do and I understand”.

A Mix Max Brasil traz a sensível e hábil curadoria de Liesbet Ruben, holandesa fascinante que consegue ver o brilho de todas as coisas, mesmo que no escuro. A curadoria dela tem trazido para a Fina diariamente um novo aprendizado, é extremamente sagaz e tudo que é pensado não tem nem de longe cara de universo infantil, o que nos deixa ainda mais intrigadas. Mas, como mãe que sou, sei perfeitamente que quando quero impulsionar meu filho para outro ambiente, e buscar nele um interesse e perspicácia, sei que não é mostrando mickeys ou bakugans, e sim algo muito mais subjetivo, mais subliminar, definitivamente as impressões dele são sempre muito mais surpreendentes do que quando ele opera na atmosfera do óbvio.

As crianças holandesas terão a oportunidade de ver um Brasil e um Pernambuco que as daqui não têm. Sob o olhar aguçado de uma curadoria e de uma cenografia – Aby Cohen- bem distintas, inusuais, mas, extremamente lúcidas. Para a Fina, resta acompanhar esse processo como quem acompanha aula de doutorado e produzir tudo, tudo mesmo que sai da cabeça da dupla. Colocar os ítens num container gigante, em navio rumo ao porto de Roterdam e, claro, vez e outra, pois não somos blasés, sugerir novas idéias, novas imagens, novas texturas, contribuindo com elas.
Estamos todas curtindo esse desafio.

Exposição sobre a China no Tropenmuseum Jr.

A importância de Circular

É fato que as redes sociais e todas as ferramentas disponíveis hoje ( Soundcloud, Bandcamp, o decadente Myspace, o ágil Facebook o mega ágil Twitter e tantas outras) são parceiros indispensáveis das bandas, produtores, artistas. Mas, circular é fundamental.

Ficar sentado horas por dia na frente do computador dando um gás em sua rede é básico, circular é imprescindível. É circulando pela comunidade, pela cidade, pelo estado, pelo país e pelo mundo que os grupos e produtores vão adquirir estrada, experiência, conhecimento, ampliar seu network pessoal e, principalmente, ampliar sua visão de mundo.

Ouvir e ver outros grupos, outras iniciativas, outros formatos, outras gerências, tudo isso pode ser uma grande ferramenta para desenvolvimento de suas carreiras ou de suas empresas.

E, se não conseguir tocar com seu grupo, com a banda que você produz, vá assitir, vá participar das palestras, vá ver os shows, leva o disquinho, leva o cartãozinho, tenta marcar uma reunião rápida – nunca passe dos 10 minutos com um promotor, e olhe lá.

Participar de eventos de músicas que não são feitos só de shows é melhor ainda. As convenções podem ser grandes aliadas, nelas, você pode encontrar os festivais mais interessantes, os melhores centros de música, andando na sua frente, comendo do seu lado ou dançando perto de você…os programadores e diretores realmente participam desses eventos em busca de nomes pros seus projetos…Vale a pena investir e ir. Eu, nunca me arrependi.

Vão aqui algumas dicas:

www.circulart.org

www.womex.com

sxsw.com

latinalternative.com

www.feiradamusica.com.br

www.mercadocultural.org

Praça, feitiço, árvore, Argentina ou Caia na estrada e perigas ver ou A aranha arranha a jarra

por Pérola Braz
Fina Produção

6 roteiros, 19 dias, 71 atrações, 88 cidades, 200 profissionais, 270 artistas. Os números dão uma idéia da dimensão do Circuito Sesc de Artes, iniciativa do Sesc SP em parceria com as prefeituras locais do interior, litoral e Grande São Paulo que moveu trabalhos artísticos para todos. A praça como ponto de encontro e de trocas simbólicas é o eixo de uma programação que intervém no espaço público a partir de diferentes linguagens. Música, teatro, circo, dança, artes visuais, literatura, artemídia, arte-educação e perfomances coexistiram em cada roteiro programado neste junho.

Eu, de Pernambuco, parti com Siba e a Fuloresta, um grupo esquisito, um bando de velhotes tocando e um cantor magro que nem palito, com um som, digamos, diferente. Parte do roteiro 1, itineramos por 16 cidades, suspendendo o cotidiano dos passantes, desavisados ou programados pelo projeto. Junto conosco, trabalhos especiais do Grupo Circo Branco (SP/PE), Quik Cia de Dança (MG), Circo Davinci (ARG), Caixa de Imagens (SP), Cia Patética (SP), além do Jogo do Acervo Sesc, o Symbiosis (PA), É Crédito ou Débito (BR) e a vídeo repórter Angélica Muniz (SP).  Diferentes expressões que se encontram, conversam e criam unidade, convivência que se torna uma das cortesias desta ação.

Apresentar o trabalho em praça pública, para a vida espontânea local, dia após dia, é uma oportunidade especial, onde a comunicação do artista se dá de forma completa, junto ao ambiente, sua história, cultura e população.  O Circuito SESC de Artes forma público pegando as pessoas pelo braço e brindando-as com programação e serviço de qualidade. Um presente para todos. Com produção e estrutura mais que decentes, a estrada nos fez carinho. Também comprovamos, o Brasil tem inverno. É geladinho.

Dentre os objetivos do circuito, como ponto de partida, está a consideração da experiência artística e a quebra da rotina no cotidiano das cidades, estabelecendo provocações e diálogos, propiciando novas possibilidades. Além desses aspectos, pretende deixar rastros, nesse cenário urbano, com a passagem do projeto. A arte é apresentada no projeto de forma singular, a fim de proporcionar a construção de uma verdadeira educação que passa também pelos sentidos.

Sentimos.

Vida longa ao Circuito SESC de Artes, às praças, ao feitiço, às árvores e também à Argentina.

*Para conhecer o projeto e os artistas participantes acesse: www.sescsp.org.br/circuito
*A produtora que vos fala segue por Recife e por todo lugar.  Ainda não fugiu com o circo.

Não posso paralisar

Já faz mais de um mês que o Porto Musical acabou.

Estou diariamente no escritório, administrando cobranças dos fornecedores, digo, de todos os fornecedores do Porto Musical, pois nenhum, repito: nenhum deles recebeu por seu serviço no Porto Musical.

Após 40 dias que o evento acabou, continuo lutando diariamente para receber os patrocínios do Porto Musical, para que com eles eu possa pagar a todos que trabalharam no evento. Quando este dinheiro entrar, depois de algum ou muito tempo, o orçamento sofre uma variação enorme pelos juros dos fornecedores  e pelo juros do banco.

Isso se tornou uma prática em nosso setor. Todos os patrocínios saem após o evento, e, a depender dos hormônios burocráticos de cada instituição isso pode durar meses, em algumas situações absurdas, anos.

Ficamos reféns da situação, não há nada que possa ser feito a não ser a cada dia, explicar e explicar a todos que trabalharam que esperem mais um pouco e a cada dia pedir e pedir que as instituições nos paguem.

Em reunião semana passada com uma banda, sobre uma turnê que estamos planejando, mais uma constatação triste. A banda operando no vermelho, os músicos e o produtor chateados porque não recebem seus cachês, shows que aconteceram há mais de 6 meses não saíram, a contabilidade do grupo vai pro espaço e pior que a contabilidade, o que vai pro espaço é a possibilidade de planejamento, item fundamental para se desenvolver a carreira de um grupo seja dentro do Brasil e, principalmente, fora dele.

Não dá para se planejar se os grupos não recebem seus cachês e os eventos não recebem seus patrocínios. Nada anda, os valores mudam, quem sái perdendo é o artista empreendedor, o produtor empreendedor, o setor sofre com essa informalidade sem fim, e não venha me dizer que os informais somos nós !

Ano após ano, sou questionada sobre o Porto Musical pelos meus sócios alemãs da WOMEX: ” Melina você quer continuar com isso mesmo com todas essas questões financeiras?” e eu digo: “Quero continuar, porque se não for assim, não se faz nada no Brasil”. Mas, é uma triste realidade, ver que as instituições passam a vida correndo atrás do rabo, como cachorro desnorteado, em vez de se planejar, de olhar para um ano, para 2 anos, para 4 anos (que seria o certo) e ter no papel tudo que planeja fazer. Neste aspecto, a iniciativa privada dá um banho, aí concluo que o que falta muitas vezes é a mão de um bom executivo em vez de um bom político.

Mas é claro que existem outras questões: uma boa parte desse entra e sái de gestores altera completamente o dinamismo dessas instituições, cada um com seu ritmo, com seu olhar, com seus objetivos, e personalidade. Em comum, todos eles só tem uma coisa: lidar com o passivo que o anterior deixou antes de sair. Outro erro imperdoável: tratar de uma pasta e de um orçamento público como se tivesse tratando de suas contas domésticas, pessoais, como se nunca mais fosse sair daquele cargo, tratar da pasta como se ela fosse para sempre e aí vem sempre a irresponsabilidade dos atos…ou o de empurrar com a barriga as besteiras que  fez pro próximo ajeitar , ou o de adiantar demais as coisas como se o futuro não existisse, aí dana-se a realizar um monte de coisa sem planejamento nenhum de futuro. Uma tristeza só. E a gente que nunca nem entra nem sái, continua sempre aqui lidando com cada um desses como quem assiste sem acreditar uma novela ruim que nunca chega no seu fim.

O outro lado do carnaval

Passado o carnaval e a comoção do mesmo, tomo a liberdade de escrever este famigerado post.

Antes do carnaval, tomei conhecimento do enorme esforço que a Prefeitura do Recife estava fazendo para manter o nível do carnaval de 2011 o mesmo dos anos anteriores, porque o orçamento havia sido cortado em 1 milhão de Reais. Realmente, 1 milhão de reais é muita coisa, imagina que com esse valor eu poderia realizar duas edições do Porto Musical, sem precisar de outros financiadores. Mas, o mais intessante é que 1 milhão de Reais  se perde no meio dos 30 milhões que foi o orçamento global do carnaval do Recife. Somando-se aos outros 18 milhões que foi o valor oficial divulgado do carnaval de Pernambuco, temos um total de quase 50 milhões de reais investidos na festa.

Claro que o retorno institucional, eleitoral, midiático e turístico é fantástico. Eu que, como louca, realizei o Porto Musical 14 dias antes do carnaval, já tive dificuldades imensas para hospedar todo mundo. O turismo não tem do que reclamar. Mas, e a cultura?

Como viram, não citei, em termos de retorno, a questão da cultura, porque venho aqui falar um pouco sobre o outro lado do carnaval.

O que me traz a este post, é o seguinte: se a prefeitura tivesse fôlego suficiente para realizar um carnaval desse tamanho e ainda mantivesse o mesmo fôlego durante o resto do ano, dando `a Secretaria de Cultura a oportunidade de realizar ações de sustentabilidade da cultura, de suporte para inserção internacional da música daqui, de suporte para circulação nacional, de poder contribuir com um patrocínio decente para eventos também importantes da cidade, realizados pela iniciativa privada, pela sociedade civil, seria ótimo, perfeito. Mas, não é isso que acontece. Para realizar a festinha de 4 dias, a Prefeitura investe um valor colossal e no resto do ano a Secretaria de Cultura fica sem orçamento digno, para nada. Pelo menos, as respostas negativas `a essas solicitações vem sempre acompanhadas dessa justificativa: “o carnaval levou tudo”.

O próprio Porto Musical passou por isso. Por conta da diminuição do orçamento de 31 milhões para 30 milhões ;), a prefeitura não pôde contribuir com um patrocínio em dinheiro para ajudar o Porto Musical. O Porto trouxe para Recife profissionais importantíssimos da música do mundo, programadores de casas, instituições e teatros importantes, gente de mais de 10 diferentes países vieram e estão voltando para suas casas, depois de conhecer um pouco do nosso carnaval, da nossa cultura, essa é a maior contrapartida que o Porto Musical pode dar para nossa cidade , para nosso estado. É uma ação miltiplicadora, de longo prazo, que, pelos próximos anos, terá resultados, está longe de ser  puro entretenimento.

É claro que a Prefeitura continuou apoiando o Porto Musical, a estrutura de palco, som e luz da Praça do Arsenal da Marinha, que seria usada durante o carnaval foi montada toda antes para o Porto realizar seus shows. Isso é dinheiro, a ajuda veio assim. Mas, este ano, devido as mudanças no governo federal e na gestão da cultura estadual, tivemos um ano difícil e solicitamos, pela primeira vez, em cinco edições, alguma evolução na parceira entre o Porto Musical e a PCR, pois estávamos realmente precisando. Mas, ela não pôde ser atendida, apenas um pequeníníssimo valor de última hora foi conseguido. E pensar que o valor solicitado devia ser algo como UM cachê, de UM show, de UM artista que fez o carnaval em UM dos polos.

Mas, voltando ao assunto principal…Fico pensando se as coisas não deveriam ser mais equilibradas. Fazer o carnaval é importante, mas, será que não se deveria diminuir a quantidade de shows? Será que não seria melhor diminuir a quantidade de polos? E o dinheiro que se gastaria com isso se colocaria na Secretaria de Cultura, para ela fomentar projetos importantes ao longo do ano.

Mas, aí, quando falo em diminuir  a quantidade de show para se preservar algum dinheiro pro resto do ano, vocês podem perguntar: mas, como a PCR vai atender todas as solicitações dos grupos, bandas, artistas que desejam tocar no carnaval? É verdade, seria um problema, mas, também acho que enxugar alguns shows para 1 ou 2 de um mesmo artista já é uma forma de se prestigiar todos, seria uma saída. Quando a PCR  veio fechar o show do meu artista, apenas um show, disseram-me  que todas as bandas só iriam fazer apenas um show no carnaval desse ano, achei justo e achei ótimo, significava que mais grupos diferentes se apresentaraim e teriam suas  chances. Mas, não foi bem isso que estava na programação final, alguns vários artistas, fizeram 2, 3, 4 shows. A justificativa varia, ela se aplica em algumas situações, em outras, não.

Mas, voltando pro cerne desse post, tentando concluir pelo menos um dos pensamentos que me assombraram durante este carnaval 2011… Como produtora que sou daqui de Recife, que passo o ano trabalhando em projetos que tentam dar visibilidade a nossa música, a nossa cidade, a nossa cultura, acho um erro estratégico – entre outros tantos que presenciamos neste caranaval, mas, aí são outros posts – gastar tanto dinheiro numa festa só, sem enxergar que tudo na vida é planejamento, continuidade, fomento e sustentação e que existem ações multiplicadoras e fundamentais que vão muito além do entretenimento puro e simples. Essas ações e projetos, infelizmente, ainda precisam e muito de políticas públicas, de fomento e são iniciativas que esperam uma atitude responsável e inteligente sobre como se administra um orçamento, `as vezes já tão escasso.

Prólogo: ficarei esperando ansiosa por comentários e respostas que me digam que estou enganada com isso tudo e que o orçamento para a Cultura da Prefeitura está garantido, independente do “carnaval ter levado tudo” , não faço nenhuma questão de estar equivocada!

As indústrias criativas e uma nova oportunidade de mercado

Há alguns anos temos vivido um processo sem volta. O processo que chamo de Processo C: compartilhamento, cooperação, contribuição.  Neste processo temos trabalhado mais perto uns dos outros, as parcerias são desenvolvidas nos formatos mais diferentes, a cooperação profissional se dá em vários níveis, independente das distâncias. Mas isso ainda é feito de um jeito um tanto quanto informal, não remunerada e não reconhecida.

Paralelamente a isso, vivemos num tempo onde certos setores da economia antes ignorados estão em alta e contribuindo definitivamente para o PIB das cidades, dos estados. São os setores chamados hoje da “Indústria Criativa”, música, cinema, games, moda, gastronomia, animação, literatura, por aí vai…

Eu sou um funcionário dessa indústria e a possibilidade de você que lê esse post também ser, é grande.

As convenções são engracadas. Nossa idéia de “indústria” sempre foi daquele lugar onde tudo o que é fabricado ali tem algumas características básicas: produção em série, em larga escala e o resultado alcança sua perfeição quando todos os produtos saem idênticos uns aos outros. A criatividade passou longe de ser uma característica disso. Aí, chamar de Indústrias  Criativas esses segmentos é, por si só, a ruptura de um significado, a ironia das convenções e traz em si um paradigma digno dos novos tempos, onde tudo o que é diferente pode estar definitivamente junto e misturado.

Investir na criação de polos de indústrias criativas pode ser um novo e rico recorte da economia tradicional. Registrar os números desses setores é muito importante para conseguirmos mais atenção de outros como planejamento, saúde, previdência social. Somos vistos por estes apenas como informais, seremos sempre “terceiro setor”?

Pernambuco é um estado pioneiro nesse tema. Não faltam visionários que há anos trabalham nesse ambiente. Silvio Meira, do seu c.e.s.a.r, Geber Ramalho, da academia, Claudio Marinho, de seu Porto Marinho, Chico Saboya, do Porto digital e outros, que, graças a Deus, tem ferramentas e algum subsídio para colocar em prática alguns projetos nessa área.

No Porto Musical, Geber Ramalho vai fazer a primeira apresentação oficial do projeto DELTAZERO, Base Recife de Indústrias Criativas. Um pool de pessoas, idéias e empresas que ao se aglomerarem em torno de um mesmo ambiente podem iniciar um processo de cooperação e parceria profundo, extremamente pró-ativo e que visualiza em primeiro lugar o mercado consumidor. E não é só o mercado brasileiro não, é o estrangeiro, especialmente. O DELTAZERO quer colocar um monte de gente para trabalhar junto, cada um na sua área, para finalização de produtos e servicos extremamente atraentes para certas demandas de mercado.

É legal demais pensar nos cineastas pernambucanos chamando os músicos daqui para fazer suas trilhas, e os profissionais de animação para criar as aberturas de seus filmes e que a galera dos games, em vez de comprar as trilhas brancas, encomendem peças para os músicos. Sensacional. Um novo modelo de atividade, um futuro atraente para os criativos das mais diversas áreas, uma possibilidade real de otimização de espaço, de idéias e a prova final que esses segmentos são auto-sustentáveis e que podem em breve alcançar uma posição de destaque na economia mundial.

Prólogo: Durante o Porto Musical será lançada a FNEC- federação Nacional de Economia da Cultura, com o olhar imediato para asindùstrias Criativas. Vamos nessa?

Um olhar para a exportação da música brasileira.

O governo de Lula, através dos seus ministros Gilberto Gil e Juca Ferreira, conseguiu transformar o MINC num ministério de verdade, com ações, atitudes e atividade. Tenho a impressão que o MINC não existia enquanto instituição antes disso. Agora, A nova ministra Ana de Holanda tem que manter as conquistas reconhecidas e dar sua marca pessoal ao MINC, claro.

Mas, agora é hora de ver o que ficou faltando  e colocar um olhar cuidadoso sobre ações que ainda não conseguiram ser vistas com calma e atenção.

Falando sobre música, um dos aspectos que de cara eu destacaria, seria a exportação da música brasileira. Hoje, esta ação esta concentrada na APEX – Agência Brasileira de Exportação, que cuida da exportação da cachaça, do sapato, do café e, da música do Brasil 🙂 – através de um convênio com a instituição BM&A- Brazilian Music and Arts, que vem há alguns anos, na medida que pode e dentro do seu entendimento desse mercado, criando ações de visibilidade da música brasileira em convenções e feiras de música espalhadas pelo mundo.

Nos primeiros anos dessas ações, em meados de 2003, 2004, não soava bacana, pelo menos pra mim. Quando via essas ações e a música que estava compreendida por elas, não me sentia representada, não sentia que a música que eu trabalho, estava ali, presente. Era outra coisa. Nos últimos anos e, particularmente, após a entrada do diretor David McLoughlin, as coisas começaram a ficar mais interessantes. David tem buscado outros parceiros, tem buscado conhecer outras iniciativas e a interagir com elas. A coisa melhorou muito e hoje, quando vejo, mesmo que de fora, já tem gente bacana participando.

Mas, na minha compreensão, definitivamente isso nao é suficiente. O MINC tem que tomar pelos braços essa representatividade brasileira lá fora. Precisa desenvolver programas e não apenas ações isoladas. Os programas são fundamentais, como por exemplo, o de intercâmbio que ja existe, e que viabiliza passagens aéreas pros grupos. Esse programa é fundamental, talvez, o mais importante de todos. Hoje, é difícil concorrer por ele nos parâmetros que estão disponíveis. Uma turnê se desenrola por muitos meses de trabalho, não temos com tanta antecedência todos os lugares que iremos passar e por isso perdemos a chance de participar. Tem que se encontrar uma forma mais viável. No fim,  as melhores turnês não são apoiadas por este instrumento, que acaba sendo subutilizado.

As iniciativas individuais de produtores, agentes e artistas estão com cases de sucesso para mostrar ao MINC por onde começar. Seria inteligente conversar com esses agentes e ver o que implementar. O momento é bom pra isso. O Porto Musical 2011 esta com seu maior foco nesses temas. Vai trazer pra Recife duas das principais instituições de música do mundo, o Lincoln Center de Nova York e o Barbican Center, de Londres. Seus programadores farão conferências sobre como entrar nesses mercados, além de outros profissionais da Holanda, Colômbia, Japão, França, que vão falar sobre esses mercados.

Sem dúvida vai ser um encontro dos mais produtivos e ricos de todos as edições do Porto Musical, se eu fosse a Ministra Ana de Holanda não perderia essa oportunidade.

VOO 6133 RECIFE – SALVADOR

Estou Indo passar mais uns dias fora de casa.

A parada será em Salvador para a primeira reunião de coordenação da Feira Música Brasil 2010. A FMB teve sua primeira edição em 2007, juntamente com o Porto Musical. Em 2006 havia acontecido a segunda edição do Porto. Naquela época, o Ministério da Cultura, liderado por Gilberto Gil esteve pela primeira vez no Porto Musical para anunciar o projeto da Copa das Culturas. Era ano de Copa do Mundo e o Brasil pretendia fazer uma grande copa e uma grande ação cultural levando diversos artistas para a Alemanha, juntariam um grande futebol com grandes shows musicais. No fim, o Brasil não mostrou um futebol tão bom e o projeto da música…bem, essa é outra história.

Nesta ida do MINC ao Porto Musical eles puderam conhecer a idéia do Porto, a estrutura da cidade, a sacada de fazer o evento pouco antes do carnaval, quando Recife já respira a época mais interessante do ano.  Profissionais brasileiros e estrangeiros encontrando-se nas ruas, vendo conferências, trocando discos, idéias e possibilidades.

Pouco depois, o MINC resolvia realizar a sua primeira grande feira nacional de música. Depois de alguns contatos, soubemos que esta feira se realizaria em Recife, na mesma época do Porto no ano seguinte. Deveríamos fazer juntos? Separados? Não havia alternativa, ela iria acontecer e nós ou estaríamos dentro ou estaríamos dentro. Como fazer a terceira edição do Porto na mesma época, fora disso tudo?

Participamos do projeto executivo, acrescentamos expertise, idéias, mas, a relação foi complexa. Quem veio não entendeu muito bem, achou a coisa meio esquizofrênica. Era um evento? Dois em um? Ninguém entendeu bem e nós menos ainda, saímos dessa experiência enfraquecidos, cansados, chateados. A primeira FMB poderia ter acabado com o Porto Musical. Mas, conseguimos aos poucos nos refazer, apesar de não ter conseguido realizar a edição seguinte em 2008, voltando apenas em 2009.

Foi de 2008 pra 2009 que o MINC sofreu mudanças internas interessantes. Pessoas ligadas ao mercado e com um olhar mais atento ao mundo independente brasileiro assumiram cargos de destaque, autonomia e decisão.  Fizeram um grande balanço da primeira FMB, perceberam os tropeços e erros, entre eles, um crucial – o Governo não deve enfraquecer as iniciativas da sociedade civil, deve sim, percebê-las, fomentá-las, acrescentar-lhes notoriedade, respeito e investimento. O MINC realizou a segunda FMB em dezembro de 2009 também em Recife, ainda tentando superar as heranças da primeira.

Mais organizada, interagindo mais com o mercado e mais próxima das demandas desse mercado, a segunda FMB foi importante para a consolidação da Rede Música Brasil, uma rede formada hoje por 13 entidades organizadas da música no Brasil, mas, ainda enfrentou críticas, sofreu com questões internas e ações com resultados fracos, apesar de ter tido sucesso na convocatória nacional com uma presença simbólica do mercado musical do Pais.

A terceira FMB acontecerá de 8 a 12 de dezembro em Belo Horizonte e desta vez já conectada com a Rede Música Brasil, parece estar encontrando seu caminho e sua vocação. Nesta terceira edição da FMB, o MINC/Funarte percebeu a importância e a contribuição preciosa que os outros eventos de negócios da música que já existem no Brasil podem dar para a realização da FMB.

Por fim, esses 5 eventos se reuniram: Feira da Música do Ceará, Mercado Cultural da Bahia, Brazil Central Music, Feira da Música do Sul e o Porto Musical. Animados com esse grupo, estamos contribuindo para que a FMB  encontre o sentido de sua existência, como ela pode complementar as iniciativas que já existem, vindo não para dividir e enfraquecer, mas, para somar, acrescentar, estimular e se divertir com a gente.