Um bilhete pra Geraldo.

Olá Geraldo, tudo bem?

Não nos conhecemos pessoalmente ainda, meu nome é Melina Hickson, sou produtora de música há 15 anos em Recife. Sou empresária de um artista pernambucano que não sei se você conhece, o nome dele é Siba.  Também sou diretora de uma convenção internacional de música e tecnologia que está indo agora para a sexta edição, o Porto Musical.

Eu conhecia você de nome quando Eduardo assumiu o Governo. Várias pessoas chegaram para falar que você tinha o entendimento do assunto da economia criativa, tanto que ao assumir a secretaria de desenvolvimento econômico havia levado o tema pra ser desenvolvido pela pasta.

Geraldo então, agora que você será prefeito do Recife gostaria de te mandar esse primeiro bilhete para pedir que você olhe com atenção para a pasta de cultura, que não a use apenas como uma troca política e se tiver que ser assim, que escolha uma pessoa sensível, com visão além do óbvio, aberta, consciente, com noção do tamanho da produção que temos e da especialidade dela. Gostaria de propôr que o  orçamento anual da  cultura não seja esvaziado nos 4 dias de carnaval deixando o resto do ano sem dinheiro para consolidar projetos de sustentabilidade para o setor.

Sugiro que a secretaria tenha um planejamento anual para a cultura, buscando suportar e otimizar iniciativas que já existem da sociedade civil. Sugiro que a PCR envolva produtores, artistas e empreendedores da cidade nas discussões desse plano, de um jeito mais objetivo e menos político, olhando para o desenvolvimento de um mercado interno e olhando a difusão e a exportação como prioridades. Sendo assim, a Rádio Frei Caneca é uma urgência, pois já é lenda.

Estou aqui para contribuir no que for preciso, enquanto entender que de todas as metas, a principal é fazer existir executiva e inteligentemente a pasta da cultura.

Avante. por mim.

Siba, sabe o que percebi? Que AVANTE é um passeio por sua vida desde muitos tempos atrás. Dizer que este é um disco totalmente novo e inusitado é deixar de lado uma enorme história, que vem desde os Ambrósios, passando pela Fuloresta, até hoje. Este é um disco ousado sim, o show é mais ainda. Depois de 8 anos tranqüilo, livre, solto, você voltou a se desafiar, assim quando refez o caminho São Paulo – Nazaré da Mata, para formar a Fuloresta. Agora, resolveu pegar a guitarra e fazer um disco tão pessoal, passando o show, ensimesmado, cantando letras infinitas, e tocando um instrumento sem fim nas sua mãos. Guitarra que você sempre tocou mesmo antes do Mestre Ambrósio e muita gente nem lembrava.

AVANTE sempre foi o nome desse projeto. Sim, porque não conheço ninguém mais capaz de desafiar a si mesmo, a sua coragem é este disco.

Pra mim, foi incrível descobrir que ARIANA é uma música sobre o Afeganistão, uma declaração de amor para um mundo tão longe, quando pensei que era uma declaração de amor para alguém. Mais lindo ainda foi saber que uma das músicas que mais me encantam no disco você já tinha há tantos anos e nunca gravou, mesmo Biu Roque dizendo para você gravar aquela ciranda tão linda. BRISA, ciranda ou não, por fim, está gravada.

Fico pensando como se chegou nesse formato inusitado de banda… uma tuba, em vez de um baixo? Ah sim, lembro! Fizemos testes com alguns baxistas, eram ótimos, mas, na veia corre o sangue do sopro, dos metais, e tínhamos recebido um presente meses antes, Léo havia entrado na Fuloresta e tocava super bem, porque não substituir o grave do baixo pela tuba?

O vibrafone foi idéia do Catatau? O Antônio foi idéia do Benjamim? Acho que os dois juntos formam a composição certa. O mineirinho tocava vibrafone e teclado como ninguém, conversava e tinha muita vontade…agora ele está maestrando com você o processo, o show, a nova vida, daqui pra frente.

A bateria foi mais difícil, era pra ser desde sempre junto com a guitarra, principalmente porque a idéia era não ter percussão…aí, pro disco,  veio o Samuca que fez bonito mas foi embora do País. Pros shows então, a gente encontrou Serginho que trouxe um peso e uma agilidade bem pessoais para a bateria.

E suas guitarras? É sério que a gente vai ter que viajar com três? Eu tava tão tranqüila com o formato da Fuloresta…tão simples…nem passagem de som precisávamos fazer mais. Tudo bem, quando você resolveu se desafiar nesse projeto eu deveria saber que seria a próxima a ser desafiada…tava tudo tranqüilo demais.

AVANTE traz uma exposição absoluta do seu processo de criação, como compositor e como músico. Lembro quando você estava no início desse processo, Caio e Pablo chegaram dizendo que queriam acompanhar tudo, achamos aquilo interessante, mas, não sabíamos o quanto toda aquela perseguição seria importante. Caio e Pablo foram muito mais do que testemunhas de um processo de criação, eles foram, através de seus olhares, os responsáveis por registrar cada momento desse disco, cada momento seu, cada estrada por onde você caminhou e isso tudo findou nos Balés da Tormenta.

Avante é muito mais que um disco, é um repertório de vida, é um recorte de alguns anos dela, mesmo as coisas que você quer esquecer. PREPARANDO O SALTO é a prova do processo, é a prova do período. BRISA, apesar de já existir, caiu perfeitamente no momento que você vivia. ARIANA traduz sua fúria pelos livros e sua admiração pela guerrilha , pelas tradições e pela coragem dos povos. BEIRA-MAR mostra que a ciranda pode ter várias faces, muito além da percussão, do sopro, da roda.

A BAGACEIRA e CANOA FURADA tem o pé no carnaval e num momento de sua vida.Como pode alguém rir tanto de sua própria tragédia? MUTE vem pra dizer que muitas vezes é melhor ficar calado,  mudo e esperar o tempo passar. A idéia de UM VERSO PRESO era ser uma vinheta, lembra? Mas, pode uma música ser uma vinheta, uma vez tocada por você e cantada por Lirinha? Não creio.

Então, a música AVANTE. A arte de cantar, com todas as suas peripécias, perspectivas, possibilidades, arrebatamento, ironia, ambição e veneno.  Ouvir esta letra é perceber o tamanho do que achamos ser tão simples, cantar. AVANTE é a música que mais me intriga no disco, e, claro, a que você escolheu para começar o show. Eu podia pensar que seria pesada demais pra começar um show, mas, quando a vi pela primeira vez em ação, além de ter ficado tensa, como todos os outros da audiência, pensei: é ela mesma, tá certo! É um tapa na cara. Depois dela – e do suspiro do público – o que vem depois, é o descobrimento de um novo mundo, todo pronto, todo seu, entregue pra quem quiser conhecer.

QASIDA mostra esse mundo profundamente. Um mundo que começou distante, no agreste de Pernambuco e que, há muito, mesmo não sendo mais, por você, habitável, serve como ponto principal de sua inspiração como cantor e compositor, com a poesia rimada sendo a base principal de suas letras.

Mas, certo mesmo, nesse mundo todo que você recriou para viver, morar, tocar e cantar, o seu filho Vicente, cheio de BRAVURA E BRILHO, é a prova de que independente de quantos saltos você der, de quantas brisas tomar, de quantas canoas furarem, de quantos versos presos, é por ele principal e especialmente que você irá AVANTE.

Ariana. Um comentário. Para Patrick, com carinho.

Sempre quis entender a mania dos jornalistas, da mídia, de rotular, de segmentar, de dar título, de compartimentar a música. Nos primeiros instantes da criação, a próxima pergunta pode ser: o que estou criando? Que tipo de nome, de gênero que eu dou a isso?

Preocupando-se ou não com isso, o artista ou produtor ou ambos, sabem que terão que passar os próximos 3 anos de suas vidas respondendo a esta mesma pergunta, que ritmo? Que conceito? Que tipo de música está sendo feita?

Ao enquadrar sua criação, o artista é obrigado a deixar de lado tanta coisa a mais, tanta referência, tanta inspiração. Ao enquadrar, o resultado é um recorte miúdo de um ambiente infinitamente superior, mais complexo.

Sinto-me à vontade para falar sobre isso, desde que comecei há vários anos a acompanhar de perto a carreira de Siba. Acompanhar atentamente os processos dele como compositor, arranjador, instrumentista , percebendo a grandeza de tudo, as diferentes vias de acesso à criação, as múltiplas formas de inspiração para compor, o imenso caminho até o término de uma canção. Ao perceber tudo isso, me parece um desperdício ou, às vezes, uma precipitação, nos forçar a dizer, em uma ou duas palavras, o que danado é isso tudo.

Isso vem a maioria das vezes da mídia tradicional, toda rápida, toda urgente, toda imediata, condensada no tamanho do texto que a ausência do anúncio comercial permitiu ou na dependência da hora do início da novela. Sinto até um certo sentimento de pesar pelos colegas jornalistas que gostariam de ir mais além e não podem. Mas, quando isso parte de um ambiente mais livre, mais independente, aí fico achando que é uma mania mesmo.

Fui movida a escrever este post, depois de ler no facebook, uma sentença interessante. Depois que postamos um teaser de 4 minutos de uma música do novo disco de Siba, Ariana, li um comentário que dizia que o disco fazia parte de uma era pós – brega. Li aquilo que foi escrito por Patrick Tor4, meu querido amigo, uma pessoa que adoro muito, li e passei direto. Mas, depois, provocada, li de novo, e aí fiquei pensando. Patrick escreveu o que ele sentiu ao ver o teaser, ele fez uma análise pessoal sobre o que sentiu na música e, por ser um cara muito ligado ao ambiente do tecnobrega, enquadrou então o novo disco de Siba numa era criada por ele, fofa inclusive, chamada de pós-brega, onde outros artistas também estariam, Lirinha, Cidadão Instigado, entre outros.

Na verdade, não tenho nada contra o que Patrick escreveu e nem acho ruim ele ter sentido isso da música. Mas, isso me fez pensar sobre essa necessidade do rótulo, de criar compartimentos, de segmentar, de reduzir algo que, na minha opinião, está tão além.

A intrigante urgência para se definir algo que nem foi lançado ainda, que nem foi ouvido ainda. Patrick viu apenas um teaser de uma música, não tem nem ela completa, não é um clipe. De um disco inteiro, ele teve acesso a apenas uma canção e o disco entrou na lista de uma nova era. Para o meu queridão Patrick que me provocou sem saber, e para todos os outros que tem interesse em conhecer o disco Avante, de Siba, eu diria que tentar enquadrá-lo em qualquer ritmo, movimento, mundo, segmento, vai dar um trabalho do cão. Mas, se alguém chegar a alguma conclusão, por favor, nos diga, quem sabe não nos ajuda a responder à mesma pergunta pelos próximos 3 anos de nossas vidas.

Assista ao Teaser Ariana:

SIBA – Ariana from DobleChapa on Vimeo.

Praça, feitiço, árvore, Argentina ou Caia na estrada e perigas ver ou A aranha arranha a jarra

por Pérola Braz
Fina Produção

6 roteiros, 19 dias, 71 atrações, 88 cidades, 200 profissionais, 270 artistas. Os números dão uma idéia da dimensão do Circuito Sesc de Artes, iniciativa do Sesc SP em parceria com as prefeituras locais do interior, litoral e Grande São Paulo que moveu trabalhos artísticos para todos. A praça como ponto de encontro e de trocas simbólicas é o eixo de uma programação que intervém no espaço público a partir de diferentes linguagens. Música, teatro, circo, dança, artes visuais, literatura, artemídia, arte-educação e perfomances coexistiram em cada roteiro programado neste junho.

Eu, de Pernambuco, parti com Siba e a Fuloresta, um grupo esquisito, um bando de velhotes tocando e um cantor magro que nem palito, com um som, digamos, diferente. Parte do roteiro 1, itineramos por 16 cidades, suspendendo o cotidiano dos passantes, desavisados ou programados pelo projeto. Junto conosco, trabalhos especiais do Grupo Circo Branco (SP/PE), Quik Cia de Dança (MG), Circo Davinci (ARG), Caixa de Imagens (SP), Cia Patética (SP), além do Jogo do Acervo Sesc, o Symbiosis (PA), É Crédito ou Débito (BR) e a vídeo repórter Angélica Muniz (SP).  Diferentes expressões que se encontram, conversam e criam unidade, convivência que se torna uma das cortesias desta ação.

Apresentar o trabalho em praça pública, para a vida espontânea local, dia após dia, é uma oportunidade especial, onde a comunicação do artista se dá de forma completa, junto ao ambiente, sua história, cultura e população.  O Circuito SESC de Artes forma público pegando as pessoas pelo braço e brindando-as com programação e serviço de qualidade. Um presente para todos. Com produção e estrutura mais que decentes, a estrada nos fez carinho. Também comprovamos, o Brasil tem inverno. É geladinho.

Dentre os objetivos do circuito, como ponto de partida, está a consideração da experiência artística e a quebra da rotina no cotidiano das cidades, estabelecendo provocações e diálogos, propiciando novas possibilidades. Além desses aspectos, pretende deixar rastros, nesse cenário urbano, com a passagem do projeto. A arte é apresentada no projeto de forma singular, a fim de proporcionar a construção de uma verdadeira educação que passa também pelos sentidos.

Sentimos.

Vida longa ao Circuito SESC de Artes, às praças, ao feitiço, às árvores e também à Argentina.

*Para conhecer o projeto e os artistas participantes acesse: www.sescsp.org.br/circuito
*A produtora que vos fala segue por Recife e por todo lugar.  Ainda não fugiu com o circo.

Tanta produção, pouca difusão…

Pernambuco é bastante reconhecido por sua cultura tão diversificada. E, mais ainda no que diz respeito a música, temos uma diversidade incrível de ritmos! Grupos ou artistas como Dj Dolores, Siba, Nação Zumbi, Spok Frevo Orquestra, Orquestra Contemporânea de Olinda, Eddie, Otto, Mundo livre S/A, Renata Rosa, Silvério Pessoa já são reconhecidos em todo Brasil e no exterior. No entanto, a grande maioria do público aqui no estado continua ignorando a existência dessa produção. Por que isso acontece? As bandas deixaram de circular ou de fazer seu trabalho? A resposta a estas perguntas é não! A grande questão é que o público não pode consumir aquilo que não conhece. E, eles não conhecem estas bandas porque elas não tocam nas rádios e nem estão nas TVs.

A difusão é, sem dúvida, o maior imbróglio da nossa produção musical. As rádios pernambucanas ou tocam todos os enlatados estrangeiros ou aqueles que podem pagar para tocar- e que, é claro, tem grandes chances de virar um sucesso de público!

Uma vez, uma pessoa da Fundarpe (Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco) comentou comigo que os técnicos do Tribunal de Contas de Pernambuco sempre questionavam os cachês de artistas como os que foram citados acima.  Ele explicou que eram, quase sempre,  questionadas as planilhas de pagamentos de cachês nas somas de 10, 15, 20 mil para “aqueles nomes que nunca tinham ouvido falar”! Porém, não havia nenhum tipo de comentário com as planilhas de 150, 200 mil de cachês para os famosos ou, pelo menos, já conhecidos por tocar nas rádios e em novelas.  Os técnicos do Tribunal de Contas, assim como o grande público,  não conhecem essa “fina produção”, porque é uma música pouco ou quase nada tocada pelas rádios e TV´s abertas.  Então, como uma boa parte das pessoas não têm muito interesse em conhecer o novo e/ou “desbravar” a diversidade cultural daqui do estado, elas também não vão poder, nem ao menos, saber quem são esses grupos.

A chamada consagração para uma boa parte do grande público, acaba não acontecendo para alguns grupos e artistas talentosíssimos- que, em sua maioria, já possuem mais de 5, 10 anos de carreira,  outros com mais de 6 turnês internacionais, alguns já tocaram para presidentes de repúblicas, uma boa parte já ganhou os maiores prêmios de música do Brasil, outros já foram indicados para o maiores prêmios mundiais, como o Grammy. Enfim, todos são respeitadíssimos pela crítica especializada do Brasil e de fora, mas o grande  público não conhece e nem tem acesso por pura falta de difusão ou por uma, não tão pura assim, ausência absoluta de interesse por cultura.

E não me venha dizer que esses grupos ou artistas fazem uma música pouco acessível, pois existe música para todos os gostos, faixas etárias… para os sentimentais e intelectuais! De Brigitti, música da Orquestra Contemporânea de Olinda; a Canoa Furada, de Siba; Crua, de Otto; os frevos da Spok Frevo; os sambinhas do Mundo Livre…  Numa boa, pra todos os gostos tem uma música pronta pra ser descoberta, apreciada, cantada, dançada e, por fim,  reconhecida!

Epílogo:

A esperança fica nas mãos de iniciativas de valor e importância ímpar como:

Roger de Renor e toda sua trajetória, muitas vezes, como uma voz solitária, divulgando essas bandas e artistas em seus programas,  como a Sopa,  na Rádio Oi ou o programa Na Rural. Agora, ocupando uma pasta importante, trabalha árduamente para colocar a TV Pernambuco funcionando, entre outros meios de comunicação ligados ao Governo de Pernambuco.

A ARPUB -Associação das Rádios Públicas – vem fazendo um trabalho muito bacana de conscientização das rádios públicas na valorização de todo tipo de música produzida no Brasil.