O outro lado do carnaval

Passado o carnaval e a comoção do mesmo, tomo a liberdade de escrever este famigerado post.

Antes do carnaval, tomei conhecimento do enorme esforço que a Prefeitura do Recife estava fazendo para manter o nível do carnaval de 2011 o mesmo dos anos anteriores, porque o orçamento havia sido cortado em 1 milhão de Reais. Realmente, 1 milhão de reais é muita coisa, imagina que com esse valor eu poderia realizar duas edições do Porto Musical, sem precisar de outros financiadores. Mas, o mais intessante é que 1 milhão de Reais  se perde no meio dos 30 milhões que foi o orçamento global do carnaval do Recife. Somando-se aos outros 18 milhões que foi o valor oficial divulgado do carnaval de Pernambuco, temos um total de quase 50 milhões de reais investidos na festa.

Claro que o retorno institucional, eleitoral, midiático e turístico é fantástico. Eu que, como louca, realizei o Porto Musical 14 dias antes do carnaval, já tive dificuldades imensas para hospedar todo mundo. O turismo não tem do que reclamar. Mas, e a cultura?

Como viram, não citei, em termos de retorno, a questão da cultura, porque venho aqui falar um pouco sobre o outro lado do carnaval.

O que me traz a este post, é o seguinte: se a prefeitura tivesse fôlego suficiente para realizar um carnaval desse tamanho e ainda mantivesse o mesmo fôlego durante o resto do ano, dando `a Secretaria de Cultura a oportunidade de realizar ações de sustentabilidade da cultura, de suporte para inserção internacional da música daqui, de suporte para circulação nacional, de poder contribuir com um patrocínio decente para eventos também importantes da cidade, realizados pela iniciativa privada, pela sociedade civil, seria ótimo, perfeito. Mas, não é isso que acontece. Para realizar a festinha de 4 dias, a Prefeitura investe um valor colossal e no resto do ano a Secretaria de Cultura fica sem orçamento digno, para nada. Pelo menos, as respostas negativas `a essas solicitações vem sempre acompanhadas dessa justificativa: “o carnaval levou tudo”.

O próprio Porto Musical passou por isso. Por conta da diminuição do orçamento de 31 milhões para 30 milhões ;), a prefeitura não pôde contribuir com um patrocínio em dinheiro para ajudar o Porto Musical. O Porto trouxe para Recife profissionais importantíssimos da música do mundo, programadores de casas, instituições e teatros importantes, gente de mais de 10 diferentes países vieram e estão voltando para suas casas, depois de conhecer um pouco do nosso carnaval, da nossa cultura, essa é a maior contrapartida que o Porto Musical pode dar para nossa cidade , para nosso estado. É uma ação miltiplicadora, de longo prazo, que, pelos próximos anos, terá resultados, está longe de ser  puro entretenimento.

É claro que a Prefeitura continuou apoiando o Porto Musical, a estrutura de palco, som e luz da Praça do Arsenal da Marinha, que seria usada durante o carnaval foi montada toda antes para o Porto realizar seus shows. Isso é dinheiro, a ajuda veio assim. Mas, este ano, devido as mudanças no governo federal e na gestão da cultura estadual, tivemos um ano difícil e solicitamos, pela primeira vez, em cinco edições, alguma evolução na parceira entre o Porto Musical e a PCR, pois estávamos realmente precisando. Mas, ela não pôde ser atendida, apenas um pequeníníssimo valor de última hora foi conseguido. E pensar que o valor solicitado devia ser algo como UM cachê, de UM show, de UM artista que fez o carnaval em UM dos polos.

Mas, voltando ao assunto principal…Fico pensando se as coisas não deveriam ser mais equilibradas. Fazer o carnaval é importante, mas, será que não se deveria diminuir a quantidade de shows? Será que não seria melhor diminuir a quantidade de polos? E o dinheiro que se gastaria com isso se colocaria na Secretaria de Cultura, para ela fomentar projetos importantes ao longo do ano.

Mas, aí, quando falo em diminuir  a quantidade de show para se preservar algum dinheiro pro resto do ano, vocês podem perguntar: mas, como a PCR vai atender todas as solicitações dos grupos, bandas, artistas que desejam tocar no carnaval? É verdade, seria um problema, mas, também acho que enxugar alguns shows para 1 ou 2 de um mesmo artista já é uma forma de se prestigiar todos, seria uma saída. Quando a PCR  veio fechar o show do meu artista, apenas um show, disseram-me  que todas as bandas só iriam fazer apenas um show no carnaval desse ano, achei justo e achei ótimo, significava que mais grupos diferentes se apresentaraim e teriam suas  chances. Mas, não foi bem isso que estava na programação final, alguns vários artistas, fizeram 2, 3, 4 shows. A justificativa varia, ela se aplica em algumas situações, em outras, não.

Mas, voltando pro cerne desse post, tentando concluir pelo menos um dos pensamentos que me assombraram durante este carnaval 2011… Como produtora que sou daqui de Recife, que passo o ano trabalhando em projetos que tentam dar visibilidade a nossa música, a nossa cidade, a nossa cultura, acho um erro estratégico – entre outros tantos que presenciamos neste caranaval, mas, aí são outros posts – gastar tanto dinheiro numa festa só, sem enxergar que tudo na vida é planejamento, continuidade, fomento e sustentação e que existem ações multiplicadoras e fundamentais que vão muito além do entretenimento puro e simples. Essas ações e projetos, infelizmente, ainda precisam e muito de políticas públicas, de fomento e são iniciativas que esperam uma atitude responsável e inteligente sobre como se administra um orçamento, `as vezes já tão escasso.

Prólogo: ficarei esperando ansiosa por comentários e respostas que me digam que estou enganada com isso tudo e que o orçamento para a Cultura da Prefeitura está garantido, independente do “carnaval ter levado tudo” , não faço nenhuma questão de estar equivocada!

8 comentários em “O outro lado do carnaval”

  1. A busca pela profissionalização da festa momesca, a mais espontânea, a “evolução da liberdade”, segundo Chico, trouxe-nos tais distorções, perfeita e corajosamente comentadas em seu post. A sociedade precisa refletir sobre essas questões de forma madura, sem oposicionismos. Parabéns pelos comentários.

  2. Amiga Melinha Hickson
    Os artistas que fizeram apenas UM show foram os pernambucanos. Já os de outros estados fizeram 1, 2, 3…
    Recife é uma mãe para os que vêm de fora. Preta Gil tava lá, maruada; Marcelo D2 morgado, Jorge Aragão no seu fundinho de quintal; Marina Lima com as luzes do Hotel Marina apagadas… e aí vem a PCR e os convida para um GENEROSO carnaval. Bom pra eles! Muito ruim pra gente!
    Tomara que vc esteja certa em sua intuição de que teremos dinheiro para o resto do ano…
    Amiga Aline Feitosa

  3. Sim Melina, carnaval e todos os outros eventos devem (e já estão mais que aquém em relação a isso) ter um planejamento à longo prazo, só assim ele se tornará mais responsável. De fora fiquei muito assustada com os comentários da programação de baixo nível, o merchan de patrocinadores de bebida poluindo Olinda inteira e a possibilidade disso aumentar em 2012, com camarotes no Recife, etc. Eu estava torcendo para que isso não estivesse realmente acontecendo. Não sei o que falta para as pessoas responsáveis pela organização do eventos se tornem menos ignorantes e ampliem o olhar para o cuidado que a cidade precisa e para a consciência da valorização do que é próprio em termos culturais e históricos. Enquanto se corre a favor disso, parece que ainda tem estrutura na contra mão. Lamentável.

  4. Acho que o maior problema da prefeitura/governo é querer competir com Rio e Salvador, sendo que a própria mídia e os investimentos nos carnavais foram feitos a longo prazo. Mesmo não gostando do carnaval e da música que é explorada no carnaval da Bahia, tenho que admitir que o que colhem hoje é fruto de um investimento de décadas, o mesmo acontece no Rio de Janeiro, ninguém chegou de uma hora pra outra e injetou 30 milhões de reais para que todos conhecessem e tivessem interesse em passar o carnaval no RJ.
    Acho que nessa lógica atual, estamos indo por um caminho não muito bom, estamos perdendo o diferencial da qualidade no carnaval, mesmo no carnaval multicultural tinha um certo critério de qualidade, e acho que a qualidade está perdendo espaço para a quantidade e para o popularização sem critérios do carnaval pernambucano.

    Até mesmo o que mais chamava a atenção pro carnaval daqui que eram os maracatus, frevo e demais expressões locais como caboclinhos por exemplo, estão perdendo o espaço que antes tinha um certo destaque, para grupos de pagode, bandas de axé e brega.

    Lamentável mesmo, também é a diferença de critérios na distribuição dos cachês. Ouviremos até proximidades do próximo carnaval grupos e mais grupos reclamando que ainda não receberam os cachês desse ano.

    1. Guilherme, complementando um pouco isso, os blocos tradicionais e os maracatus passam o ano todo se preparando para o grande desfile no carnaval, costurando cada lantejoulinha daquela e eles tem 5 a 10 minutos para subir no palco no fim de seus desfiles, porque tem uma programaçnao de bandas no palco depois deles que espreme a apresnetaçnao deles. Sei disso, porque vivo isso há dois anos tocando na Praça do Arsenal da Marinha com meu artista. Acho que o palco deveria ser só deles ou então diminuir a quantidade de atrações, que é o que estamos falando aqui.

  5. Melina,
    não seria João da Costa, na condição que está, que iria mudar qualquer coisa do modelo do Carnaval Multicultural. A solução da PCR é ampliar e transformar significativamente seu Sistema de Incentivo à Cultura (SIC) num edital com a mesma estrutura (orçamentária) de seus investimentos nos Ciclos (Carnaval, São João e Natal). Fora isso, é buscar a iniciativa privada como a PCR faz!
    #tamojunto
    Abs

  6. Não tenho muito mais a acrescentar após o que já tinham falando, apenas parabenizar a ousadia e iniciativa de Melina e equipe em conseguir realizar o Porto Musical em circunstâncias tão desfavoráveis. É uma pena que toda essa etapa de planejamento e organização da cadeia produtiva em seu cotidiano seja deixado de lado pela PCR e Fundarpe em detrimento da injeção de verba para os eventos dos ciclos festivos do ano. Acredito que se houvesse realmente essa verba de “manutenção”, digamos assim, para atividades profissionalizantes e de capacitação, as bandas não precisariam depender apenas dos cachês destes eventos para se manter artisticamente. Nem todas, claro, mas fica evidente cada vez mais a precariedade de espaços na cidade ao longo do ano regular para que esta produção seja mostrada ao público. Ah, se todos os palcos da cidade, ou pelo menos, o do Pátio de São Pedro tivesse sempre este mesmo padrão de estrutura e som ao longo do ano… e no fim ainda vimos que o Governo pagou 5,2 milhões a Band para transmissão do Carnaval.

  7. Na Bahia os grupos de cultura popular e blocos afro tambem sofrem assim como os nossos. É triste, mas pelo menos eles conseguem mostrar um carnaval “atraente” para o Brasil.

    Assistindo pela Band eu vi a Bahia pegando fogo, eu vi o RJ pegando fogo, e quando passava Pernambuco tinha uma banda passando o som, intervalos de shows, tinha Olinda sem passar nenhum bloco, nada de bacana. Estes 5,2 milhões pagos a Band serviram para que? Deram um tiro no próprio pé. Se um turísta de outro país estivesse decidindo para que estado ir, ele não viria a Pernambuco depois de assitir pela TV.

    Quanto a cultura popular, toda campanha publicitaria da prefeitura e Governo do estado tem um Cabloclo de Lança, ou uma rainha de maracatu. Ai durante o carnaval estes não tem camarim, desfilam em uma Av Dantas Barretos suja, violenta e escura. Não tem visibilidade, não tem camarim. Sentem no chão (no meio fio) comendo um lanche simples dado a quem viajou de outro munícipio e está com fome.

    Alguns amigos meus que vieram para o Porto Musical e tambem para o carnaval diziam: “Estes artistas a gente já vê lá nos nossos estados, queremos ver música pernambucana”

    Como foi dito em outro comentário, a PCR está jogando fora no nosso diferencial, e construindo um carnaval que desestimula o turismo.

    Melina, tenho grande admiração pela sua forma de trabalhar, por sua luta, e principalmente por você ser “ativista” nesta luta por uma melhor forma de trabalhar a cultura. É preciso muita coragem e amor para fazer o que você faz.

    Acredito que se o Porto Musical fosse na Bahia ele sería bem “maior”.

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