FINA PRODUÇÃO |

14/03/2011

O outro lado do carnaval

Passado o carnaval e a comoção do mesmo, tomo a liberdade de escrever este famigerado post.

Antes do carnaval, tomei conhecimento do enorme esforço que a Prefeitura do Recife estava fazendo para manter o nível do carnaval de 2011 o mesmo dos anos anteriores, porque o orçamento havia sido cortado em 1 milhão de Reais. Realmente, 1 milhão de reais é muita coisa, imagina que com esse valor eu poderia realizar duas edições do Porto Musical, sem precisar de outros financiadores. Mas, o mais intessante é que 1 milhão de Reais  se perde no meio dos 30 milhões que foi o orçamento global do carnaval do Recife. Somando-se aos outros 18 milhões que foi o valor oficial divulgado do carnaval de Pernambuco, temos um total de quase 50 milhões de reais investidos na festa.

Claro que o retorno institucional, eleitoral, midiático e turístico é fantástico. Eu que, como louca, realizei o Porto Musical 14 dias antes do carnaval, já tive dificuldades imensas para hospedar todo mundo. O turismo não tem do que reclamar. Mas, e a cultura?

Como viram, não citei, em termos de retorno, a questão da cultura, porque venho aqui falar um pouco sobre o outro lado do carnaval.

O que me traz a este post, é o seguinte: se a prefeitura tivesse fôlego suficiente para realizar um carnaval desse tamanho e ainda mantivesse o mesmo fôlego durante o resto do ano, dando `a Secretaria de Cultura a oportunidade de realizar ações de sustentabilidade da cultura, de suporte para inserção internacional da música daqui, de suporte para circulação nacional, de poder contribuir com um patrocínio decente para eventos também importantes da cidade, realizados pela iniciativa privada, pela sociedade civil, seria ótimo, perfeito. Mas, não é isso que acontece. Para realizar a festinha de 4 dias, a Prefeitura investe um valor colossal e no resto do ano a Secretaria de Cultura fica sem orçamento digno, para nada. Pelo menos, as respostas negativas `a essas solicitações vem sempre acompanhadas dessa justificativa: “o carnaval levou tudo”.

O próprio Porto Musical passou por isso. Por conta da diminuição do orçamento de 31 milhões para 30 milhões ;) , a prefeitura não pôde contribuir com um patrocínio em dinheiro para ajudar o Porto Musical. O Porto trouxe para Recife profissionais importantíssimos da música do mundo, programadores de casas, instituições e teatros importantes, gente de mais de 10 diferentes países vieram e estão voltando para suas casas, depois de conhecer um pouco do nosso carnaval, da nossa cultura, essa é a maior contrapartida que o Porto Musical pode dar para nossa cidade , para nosso estado. É uma ação miltiplicadora, de longo prazo, que, pelos próximos anos, terá resultados, está longe de ser  puro entretenimento.

É claro que a Prefeitura continuou apoiando o Porto Musical, a estrutura de palco, som e luz da Praça do Arsenal da Marinha, que seria usada durante o carnaval foi montada toda antes para o Porto realizar seus shows. Isso é dinheiro, a ajuda veio assim. Mas, este ano, devido as mudanças no governo federal e na gestão da cultura estadual, tivemos um ano difícil e solicitamos, pela primeira vez, em cinco edições, alguma evolução na parceira entre o Porto Musical e a PCR, pois estávamos realmente precisando. Mas, ela não pôde ser atendida, apenas um pequeníníssimo valor de última hora foi conseguido. E pensar que o valor solicitado devia ser algo como UM cachê, de UM show, de UM artista que fez o carnaval em UM dos polos.

Mas, voltando ao assunto principal…Fico pensando se as coisas não deveriam ser mais equilibradas. Fazer o carnaval é importante, mas, será que não se deveria diminuir a quantidade de shows? Será que não seria melhor diminuir a quantidade de polos? E o dinheiro que se gastaria com isso se colocaria na Secretaria de Cultura, para ela fomentar projetos importantes ao longo do ano.

Mas, aí, quando falo em diminuir  a quantidade de show para se preservar algum dinheiro pro resto do ano, vocês podem perguntar: mas, como a PCR vai atender todas as solicitações dos grupos, bandas, artistas que desejam tocar no carnaval? É verdade, seria um problema, mas, também acho que enxugar alguns shows para 1 ou 2 de um mesmo artista já é uma forma de se prestigiar todos, seria uma saída. Quando a PCR  veio fechar o show do meu artista, apenas um show, disseram-me  que todas as bandas só iriam fazer apenas um show no carnaval desse ano, achei justo e achei ótimo, significava que mais grupos diferentes se apresentaraim e teriam suas  chances. Mas, não foi bem isso que estava na programação final, alguns vários artistas, fizeram 2, 3, 4 shows. A justificativa varia, ela se aplica em algumas situações, em outras, não.

Mas, voltando pro cerne desse post, tentando concluir pelo menos um dos pensamentos que me assombraram durante este carnaval 2011… Como produtora que sou daqui de Recife, que passo o ano trabalhando em projetos que tentam dar visibilidade a nossa música, a nossa cidade, a nossa cultura, acho um erro estratégico – entre outros tantos que presenciamos neste caranaval, mas, aí são outros posts – gastar tanto dinheiro numa festa só, sem enxergar que tudo na vida é planejamento, continuidade, fomento e sustentação e que existem ações multiplicadoras e fundamentais que vão muito além do entretenimento puro e simples. Essas ações e projetos, infelizmente, ainda precisam e muito de políticas públicas, de fomento e são iniciativas que esperam uma atitude responsável e inteligente sobre como se administra um orçamento, `as vezes já tão escasso.

Prólogo: ficarei esperando ansiosa por comentários e respostas que me digam que estou enganada com isso tudo e que o orçamento para a Cultura da Prefeitura está garantido, independente do “carnaval ter levado tudo” , não faço nenhuma questão de estar equivocada!

03/03/2011

O Porto Musical 2011

Acabou de acabar o Porto Musical 2011. No último dia `a tarde eu sentia um frio estranho na espinha, um vazio estranho no peito. E uma sensação de plenitude diferente. O Porto Musical 2011 foi muito significativo. Foi realmente a edição mais especial de todas.

Quando criamos o Porto Musical, na época eu ainda era da Astronave, criamos tudo junto com a WOMEX, o nome inclusive quem deu foi o Presidente da WOMEX, Christoph Borkowsky. A idéia de fazer antes do carnaval, a simbologia de juntar dois produtos altamente exportáveis de Pernambuco, a música e a tecnologia, e fazer tudo isso na época mais maluca do ano, período de carnaval.

Tínhamos um acordo estratégico inicial que chamamos assim: 2005 – Ano “Ready” ( tudo pronto, vamos fazer) ; 2006 – Ano “Steady” (ok fizemos, ora de se firmar) ; 2007 – Ano “GO” (Ok, firmou, agora vamos pro futuro) . Depois desses 3 anos novamente nos reuniríamos para falar dos próximos 3. Mas, no ano “GO” fomos soterrados pela primeira edição da Feira Música Brasil. Ficamos feridos, sem fôlego, justo no ano mais importante. Caímos, desfalecemos, mas, não morremos. Com muita luta, conseguimos fazer a quarta edição, fora de tempo, fora de época, em junho de 2009. Mas, ela foi bacana também. No entanto, queríamos voltar para os planos iniciais: realizar o Porto Musical antes do carnaval, para isto não dava para fazer em 2010. Nos preparamos e fizemos então a quinta edição agora.

O especial desta edição foi ver que o evento apesar de não ter acontecido nem em 2008 nem em 2010, manteve seu nome e seu atrativo. Conseguimos trazer gente de 10 diferentes países para Recife, muitos ainda estão por aqui e devo encontrá-los em algum bloco, em algum show durante o carnaval. Sem dúvida, o Porto Musical foi muito legal para todos que participaram, para nós que o realizamos e também, para nossa cidade, para nosso Estado. Quem conseguiu perceber isso e aproveitar bem isso, sabe do que estou falando. Lamento que alguns parceiros não souberam aproveitar este momento melhor, lamento por perceber que a única contrapartida que eles tiveram do Porto Musical foi uma logo nas peças do Porto. Uma pena, um desperdício. Lamento por não ter visto eles circulando pelas palestras, por não ter marcado reuniões com eles e gestores, instituições do mundo todo que estiveram aqui e poderiam ter contribuído com um intercâmbio, uma troca de idéia. Lamento por esta visão tão pequena, tão limitada. Queria dar uma contrapartida muito maior aos parceiros que apoiaram o Porto Musical, do que uma simples marquinha no rodapé. Queria contribuir para o acréscimo das perspectivas, para a ampliação das visões. Mas, não posso fazer isso, querendo sozinha. Eles tem que querer também.

De qualquer forma, fica a sensação gostosa de ter visto outros parceiros circulando em todas as conferências, dançando e curtindo os shows, sentando comigo para um café, onde pudemos conversar in loco sobre o futuro do evento, sobre aquela movimentação, sobre os intercâmbios e trocas possíveis. Ficou a sensação feliz e a constatação de que os participantes que vieram por conta própria de outras partes do Brasil e do mundo, curtiram, aprenderam, trocaram e aproveitaram o máximo possível do Porto Musical. Isso tudo me faz ver que o futuro está e deve estar cada vez mais na mão de quem sabe dar valor ao Porto, sabe apreciá-lo e a entender seus objetivos, práticas e charme. Vou parar para pensar como posso cada vez mais depender menos de quem não entende nada disso e depender mais de quem entende o tamanho dessa coisa toda.

10/02/2011

As indústrias criativas e uma nova oportunidade de mercado

Há alguns anos temos vivido um processo sem volta. O processo que chamo de Processo C: compartilhamento, cooperação, contribuição.  Neste processo temos trabalhado mais perto uns dos outros, as parcerias são desenvolvidas nos formatos mais diferentes, a cooperação profissional se dá em vários níveis, independente das distâncias. Mas isso ainda é feito de um jeito um tanto quanto informal, não remunerada e não reconhecida.

Paralelamente a isso, vivemos num tempo onde certos setores da economia antes ignorados estão em alta e contribuindo definitivamente para o PIB das cidades, dos estados. São os setores chamados hoje da “Indústria Criativa”, música, cinema, games, moda, gastronomia, animação, literatura, por aí vai…

Eu sou um funcionário dessa indústria e a possibilidade de você que lê esse post também ser, é grande.

As convenções são engracadas. Nossa idéia de “indústria” sempre foi daquele lugar onde tudo o que é fabricado ali tem algumas características básicas: produção em série, em larga escala e o resultado alcança sua perfeição quando todos os produtos saem idênticos uns aos outros. A criatividade passou longe de ser uma característica disso. Aí, chamar de Indústrias  Criativas esses segmentos é, por si só, a ruptura de um significado, a ironia das convenções e traz em si um paradigma digno dos novos tempos, onde tudo o que é diferente pode estar definitivamente junto e misturado.

Investir na criação de polos de indústrias criativas pode ser um novo e rico recorte da economia tradicional. Registrar os números desses setores é muito importante para conseguirmos mais atenção de outros como planejamento, saúde, previdência social. Somos vistos por estes apenas como informais, seremos sempre “terceiro setor”?

Pernambuco é um estado pioneiro nesse tema. Não faltam visionários que há anos trabalham nesse ambiente. Silvio Meira, do seu c.e.s.a.r, Geber Ramalho, da academia, Claudio Marinho, de seu Porto Marinho, Chico Saboya, do Porto digital e outros, que, graças a Deus, tem ferramentas e algum subsídio para colocar em prática alguns projetos nessa área.

No Porto Musical, Geber Ramalho vai fazer a primeira apresentação oficial do projeto DELTAZERO, Base Recife de Indústrias Criativas. Um pool de pessoas, idéias e empresas que ao se aglomerarem em torno de um mesmo ambiente podem iniciar um processo de cooperação e parceria profundo, extremamente pró-ativo e que visualiza em primeiro lugar o mercado consumidor. E não é só o mercado brasileiro não, é o estrangeiro, especialmente. O DELTAZERO quer colocar um monte de gente para trabalhar junto, cada um na sua área, para finalização de produtos e servicos extremamente atraentes para certas demandas de mercado.

É legal demais pensar nos cineastas pernambucanos chamando os músicos daqui para fazer suas trilhas, e os profissionais de animação para criar as aberturas de seus filmes e que a galera dos games, em vez de comprar as trilhas brancas, encomendem peças para os músicos. Sensacional. Um novo modelo de atividade, um futuro atraente para os criativos das mais diversas áreas, uma possibilidade real de otimização de espaço, de idéias e a prova final que esses segmentos são auto-sustentáveis e que podem em breve alcançar uma posição de destaque na economia mundial.

Prólogo: Durante o Porto Musical será lançada a FNEC- federação Nacional de Economia da Cultura, com o olhar imediato para asindùstrias Criativas. Vamos nessa?

28/01/2011

Um olhar para a exportação da música brasileira.

O governo de Lula, através dos seus ministros Gilberto Gil e Juca Ferreira, conseguiu transformar o MINC num ministério de verdade, com ações, atitudes e atividade. Tenho a impressão que o MINC não existia enquanto instituição antes disso. Agora, A nova ministra Ana de Holanda tem que manter as conquistas reconhecidas e dar sua marca pessoal ao MINC, claro.

Mas, agora é hora de ver o que ficou faltando  e colocar um olhar cuidadoso sobre ações que ainda não conseguiram ser vistas com calma e atenção.

Falando sobre música, um dos aspectos que de cara eu destacaria, seria a exportação da música brasileira. Hoje, esta ação esta concentrada na APEX – Agência Brasileira de Exportação, que cuida da exportação da cachaça, do sapato, do café e, da música do Brasil :) – através de um convênio com a instituição BM&A- Brazilian Music and Arts, que vem há alguns anos, na medida que pode e dentro do seu entendimento desse mercado, criando ações de visibilidade da música brasileira em convenções e feiras de música espalhadas pelo mundo.

Nos primeiros anos dessas ações, em meados de 2003, 2004, não soava bacana, pelo menos pra mim. Quando via essas ações e a música que estava compreendida por elas, não me sentia representada, não sentia que a música que eu trabalho, estava ali, presente. Era outra coisa. Nos últimos anos e, particularmente, após a entrada do diretor David McLoughlin, as coisas começaram a ficar mais interessantes. David tem buscado outros parceiros, tem buscado conhecer outras iniciativas e a interagir com elas. A coisa melhorou muito e hoje, quando vejo, mesmo que de fora, já tem gente bacana participando.

Mas, na minha compreensão, definitivamente isso nao é suficiente. O MINC tem que tomar pelos braços essa representatividade brasileira lá fora. Precisa desenvolver programas e não apenas ações isoladas. Os programas são fundamentais, como por exemplo, o de intercâmbio que ja existe, e que viabiliza passagens aéreas pros grupos. Esse programa é fundamental, talvez, o mais importante de todos. Hoje, é difícil concorrer por ele nos parâmetros que estão disponíveis. Uma turnê se desenrola por muitos meses de trabalho, não temos com tanta antecedência todos os lugares que iremos passar e por isso perdemos a chance de participar. Tem que se encontrar uma forma mais viável. No fim,  as melhores turnês não são apoiadas por este instrumento, que acaba sendo subutilizado.

As iniciativas individuais de produtores, agentes e artistas estão com cases de sucesso para mostrar ao MINC por onde começar. Seria inteligente conversar com esses agentes e ver o que implementar. O momento é bom pra isso. O Porto Musical 2011 esta com seu maior foco nesses temas. Vai trazer pra Recife duas das principais instituições de música do mundo, o Lincoln Center de Nova York e o Barbican Center, de Londres. Seus programadores farão conferências sobre como entrar nesses mercados, além de outros profissionais da Holanda, Colômbia, Japão, França, que vão falar sobre esses mercados.

Sem dúvida vai ser um encontro dos mais produtivos e ricos de todos as edições do Porto Musical, se eu fosse a Ministra Ana de Holanda não perderia essa oportunidade.

28/01/2011

A fragilidade dos processos e outras divagações…

Há mais de uma semana que praticamente parei de produzir, de fazer o que gosto. Parei porque fui obrigada a entrar numa jornada desesperada em busca de contatos e ajuda de pessoas, que não me conhecem, mas, que podem, de algum jeito, ajudar  no andamento burocrático e político para que apoios fundamentais a um projeto que realizo em breve, possam ser honrados e concretizados.

A mudança do Ministério da Cultura de Lula para Dilma, trouxe um momento de parada e instabilidade nos processos já iniciados. A nova Ministra da Cultura, Ana de Holanda teve que fechar o MINC para balanço. Está fazendo um levantamento geral de tudo o que ficou em suas mãos para só depois, começar a trabalhar. Mas, quando isto acontecer espero que não seja tarde demais para muitos projetos que necessitam do apoio do MINC.
Em Pernambuco, apesar de não ter havido troca de Governo, houve troca de gestores e o novo Secretário de Cultura tem uma bomba na mão: organizar  a bagunça e entender o tamanho da bronca que ficou da antiga gestão da Fundarpe. E, para isto, ele também precisa parar para entender. E quando ele retomar as coisas, pode ser tarde demais para alguns projetos que acontecem por esses dias.

Tive que parar de fazer o que mais sei e o que mais gosto, produzir, para investir numa série de telefonemas, emails, conversas e pedidos de ajuda, e, no no meio disso tudo, me pergunto o tempo inteiro:  Quem somos nós ? Que impotância tem nossos projetos para essas pessoas, para essas instituições?   Que sentido faz para eles parar pra nos ouvir? Para entender o que estamos fazendo? Será que percebem que nossos projetos estão contribuindo para o desenvolvimento de suas pastas ?

Estou entristecida com a fragilidade dos processos que envolvem os apoios públicos aos nossos projetos. Dependemos sempre de alguém, de uma interlocução digna, que muitas vezes não conseguimos ter. Os gestores não percebem , e quando querem, às vezes, não tem tempo suficiente, como esses novos que estão assumindo agora, para ver a importância das iniciativas da sociedade civil. Não conseguem, no meio do turbilhão, observar os passos largos que essas iniciativas dão para a formação e  crescimento de setores da economia, da cultura. Sem nossos projetos, muita coisa estaria parada, e isso não acontece por que nós não estamos em transição !
O setor estaria esperando por políticas públicas que tem a cara de quem está com a caneta na mão momentaneamente. A nossa batalha é grande, é continua, é insistente e estamos contribuindo com nossas idéias, com as armas da vanguarda, da ousadia, do conhecimento de causa.

Sempre achei que a parceria público-privada feita com inteligência e perspicácia pode ser a solução para a consolidação de novos ideais, metas e desafios pra o setor da cultura. Me refiro ao fato de que o privado muitas vezes, tem as idéias e não tem o dinheiro e o público tem o dinheiro e não tem as idéias. É claro que a coisa não é tão preto no branco assim, nem quero dizer que os gestores públicos não pensam, ou  são criativos, nada disso. Quero dizer que eles estão num redemoinho de burocracias, pedidos e ações tão abrangentes e diversificadas que o dia a dia não ajuda nessa inspiração.

Do nosso lado,  investimos em projetos não comerciais, que não estão na grande mídia, que buscam qualidade em vez de quantidade e objetiva resultados futuros, amplos e multiplicadores. Ou seja, nossos projetos não são atraentes para patrocinadores privados. Estes, querem visibiliade de marca para grandes públicos, grandes mídias (se esse público vai lembrar da marca deles no outro dia, aí é outra história…)  Por isso, ficamos reféns de fomentos e incentivos públicos. Sem eles não conseguimos realizar. É triste, mas a maioria maciça de nosso eventos não são auto-sustentáveis. Podemos fazer uma dissertação sobre isto na sequência.

Aí, lembro de uma vez, conversando com meu guru, Christoph Borkowsky, presidente da WOMEX,  sobre algumas dessas coisas, sobre  como lutamos para conseguir apoios para realizar certos projetos e não conseguimos, aí fazemos na raça mesmo, sozinhos, para não perder o timming, viram exemplos, trazem resultados. Aí, anos depois, vemos instituições fazendo a mesma coisa, com nome diferente. E, enquanto  eu reclamava, ele veio com esta pérola negra: “Querida, sempre seremos pioneiros nas coisas, e depois da gente sempre vai vir pessoas e instituições imitando e fazendo o que nós já fizemos muito tempo antes, com uma diferença, eles vêm com dinheiro”.  Fica aqui uma frase irônica pra terminar esse texto sem fim e fica aqui um texto sem fim que vem pra nada, que não serve para nada, concretamente.

Prólogo: Esqueci de dizer que além do pioneirismo e da astúcia, a gente também tem outra característica: persistência.

04/01/2011

Intenções e tropeços

Há tempo quero escrever sobre a gestão de Luciana Azevedo à frente da Fundarpe.  Nos momentos de esperança quis escrever, nos momentos de surpresa e de admiração quis escrever e nos momentos de raiva então, quis dissertar. Acabei respirando fundo em todos eles e nunca escrevi nada.

Este é um texto pessoal onde opino nas questões em que me sinto apta.

Nunca vi de um gestor público tantos momentos de emoção, comoção, arritmia e agitação como nas poucas vezes em que encontrei Luciana Azevedo. Conversar com ela era como entrar numa cavalgada,  você fica zonzo, vai, volta, a cabeça gira. Você está numa reunião, tenta manter o prumo da conversa, tenta entender, tenta explicar  e no fim sai sem saber como tudo aconteceu, mas, sai de lá com um SIM. Luciana foi a  gestora do SIM.

Luciana quis fazer tudo, mudou o rumo de muita coisa, avançou como poucos, orçamento, interiorização, democratização, acesso. Colocou pessoas  bacanas pra pensar a música, pra pensar a cultura. Teve grandes e positivas intenções, mas foi vencida pela limitada estrutura de sua gestão. A máquina, o contingente de pessoal, o tempo. Tudo foi pouco, muito pouco pra dar conta do tamanho de sua visão.

Durante boa parte de sua gestão,  venceu tais limites. Fez da Fundarpe a Secretaria de Cultura, foram nas portas de lá onde todas as mãos bateram. O Funcultura cresceu, o orçamento cresceu, foram dados passos importantes para o início de uma política pública séria para a cultura. Mas ficou no ar um certo inconformismo de um monte de gente que trabalha e vive disso. Ficou a sensação de que teria sido melhor ter saído das conversas com o NÃO  do que com o SIM que demorou tanto a se concretizar ou que até hoje não foi honrado.

Não foram poucas as pessoas que viram seus projetos não se desenvolverem bem e em tempo, por falta  de organização interna e de operacionalização inteligente e digna dos processos. Ou a estrutura da Fundarpe estava muito aquém de sua inquietação em contribuir, em crescer, em gerar, ou Luciana calculou errado o tamanho de suas pernas.

Pra gente que acompanha  gestores entrarem e sairem um a um, desta vez  fica a sensação de que a cultura de Pernambuco poderia ter ido mais longe, e que nossos projetos poderiam ter sido mais bem aproveitados se a estrutura funcionasse em uníssono, com pessoas e sistemas operando em sintonia e com responsabilidade, respeitando seus limites, claro,  mas  sem deixar de sonhar e agir para uma outra realidade.

03/01/2011

A vida que a gente escolhe… parte 1

Desde pequena queria trabalhar com produção, com música. A inspiração veio da família. Tenho 4 irmãos por parte de pai. Dos quais, as duas irmãs trabalhavam com música. Ainda pequena, ia para shows que elas produziam, assistia tudo do palco, achava aquela agitação maravilhosa, gostava dos fios, do palco, da passagem de som, do show.

Quando adolescente, esperava ansiosa, as férias que me levariam de volta ao Rio para estar mais com meus irmãos e assistir aos espetáculos que não via em Recife. Foi assim que vi a Madona, os Rolling Stones, Free Jazz, Carlton Dance. Eventos que Monique e Sylvinha Gardenberg produziam. Naquela época, só pensava que tinha que crescer logo, tinha que mudar logo pro Rio e que a único jeito de trabalhar com produção de música seria com elas.

Mas, aí a gente cresce, chega a faculdade, tinha que escolher algum curso, nada chegava perto do que seria produção musical…tudo bem, fiz jornalismo mesmo. Passei a faculdade como quem vai a um passeio, foi tão simples e tão fácil, só tinha uma certeza, se quisesse trabalhar com produção de música, tinha que ser no Rio e com minhas irmãs.

No fim da faculdade então veio a surpresa, o destino, o inevitável. Conheci uma pessoa que me trouxe a possibilidade de trabalhar com música, logo e aqui em Recife. Paulo André era empresário de Chico Science e Nação Zumbi, era o produtor do festival Abril Pro Rock.

O trabalho com Paulo foi ainda mais legal que o namoro. Depois de alguns anos,  viramos sócios e  amigos. Fui sócia da Astronave por 13 anos, lá, aprendi e comecei a trabalhar com produção de música sem ser no Rio e sem ser com minhas irmãs. Uma grande surpresa pelo meio que as coisas aconteceram, não pelo fim, pois, trabalhar com produção de música nunca foi a realização de um sonho, foi a vida que escolhi desde que tomei conhecimento que esta profissão existia aos 9, 10 anos, talvez?

Hoje, depois de 13 anos de sociedade, tenho a Fina Produção e minha vida é exatamente como eu imaginava naquela época, quando tava de férias no Rio e Janeiro, com uma diferença apenas, nunca fui morar lá.

19/12/2010

Um pequeno artigo sobre o Vale Cultura, publicado na edição 105 da Revista Continente

Numa proposta como a do Vale-Cultura há muito que se comemorar, e também muito o que se refletir sobre o tema e seus resultados.

É gratificante ver a cultura ser colocada num patamar maior, num nível antes só debatido em torno do essencial para o trabalhador: alimentação e transporte. Vê-la compor a tríade dos “Vales”  e ser  percebida com um olhar mais amplo, saindo da visão do puro entretenimento, do descartável, do desnecessário. Finalmente, a cultura é entendida como um componente forte na formação do pensamento, de novas formas de ver o mundo e, consequentemente, de estímulo e complemento à educação básica do cidadão.

A grande sacada da proposta é voltar os olhos e o fomento para o consumo dos produtos culturais. A produção já vem sendo incentivada e fomentada pelas inúmeras leis e fundos de incentivo à cultura, apesar dos limites e distorções dos mesmos. O Vale-Cultura pensa exatamente no consumo desta produção, no escoamento e no acesso maior da população a todos os níveis dessa gigantesca produção cultural brasileira, que em determinadas áreas e segmentos não chega a alcançar um público expressivo e  sequer notoriedade. É a partir daí que começamos a refletir sobre  alguns pontos.

A intenção ao se criar o Vale-Cultura é aumentar consideravelmente o consumo de alguns segmentos como cinema, dança, museus e artes-cênicas. Mas, como numa proposta destas não é possível delimitar campos ou pré determinar caminhos, naturalmente, num primeiro momento o trabalhador empregará seu Vale-Cultura no produto que ele já conhece ou já ouviu falar, ou seja, aquele que ele viu na televisão ou ouviu no rádio.

No segmento da música, iria esse cidadão empregar seu Vale num concerto ou show de um artista que ele nunca viu ou ouviu ? Como ele pode empregar seu Vale numa coisa que ele não conhece? É fato: uma boa parte da música contemporânea brasileira de alta qualidade não toca nas rádios, não está na TV. Assim, podemos imaginar que também num primeiro momento, o Vale-Cultura poderá ir para os mesmos lugares, onde já ia o pouco dinheiro que o trabalhador tinha para o lazer. Mas, desta vez, com uma diferença: ele não paga sozinho, pagam também o empregador, o Governo, os contribuintes.

Do ponto de vista do produtor cultural, alguns poderão sentir imediatamente um impacto do Vale-Cultura no seu público, mas, outros, demorarão para perceber qualquer impacto em suas produções. Assim, os resultados esperados, bastante nobres e positivos, só virão se pensarmos num conjunto de ações complementares. Dessa forma, o Vale-Cultura traz também a oportunidade de pensar, por exemplo, em como melhorar a difusão no país, como democratiza-la e ampliá-la.

Ir além do que conhecemos por “produto comercial”, colocando os meios de comunicação para divulgar e promover a gigante e diversa produção cultural brasileira. Esta é uma excelente ação para fazer o objetivo do Vale-Cultura ser alcançado: dar oportunidade ao cidadão de conhecer coisas novas e investir também em produtos que tragam outro conteúdo, outra visão de mundo, outro pensamento ou, pelo menos, um pensamento novo e aditivo.

15/11/2010

WOMEX 2010- observações sobre o mercado

A WOMEX deste ano foi a minha 7a WOMEX, há 7 anos me desloco uma vez por ano atrás dela, quer aconteça em Sevilha, em Essen, Newcastle ou em Copenhagen…

Eu e mais 2.000 profissionais de música do mundo todo fazendo o mesmo. Fico pensando no poder disso, no poder da WOMEX. A convenção faz cada um de nós sair de suas cidades, pagando tudo, e caro, para se reunir em 4 dias de convenção que se não ajudar o ano seguinte a se desenrolar melhor pra cada um, vai, no mínimo, abrir a mente de todos, acrescentar conteúdo e shows incríveis de grupos de toda parte do mundo que, se não fosse ela, dificilmente teríamos a chance de conhecer.

É, sem dúvida, uma celebração da música mundial. A música e o mercado que estamos inseridos, claro. Nada de mainstream, nada de mega-produções, nada de bandas comercias. Apenas grupos, produtores e agentes que trabalham num mercado diverso, autêntico e que se diz independente.

A WOMEX 2010 me sinalizou algumas coisas:

Como os europeus estão tristes, deprimidos e sem dinheiro. Como os mercados de países emergentes como Brasil, Índia, China, Coréia, estão cada vez mais presentes nessas convenções, com shows, estandes, mercado latente, punjante. O meu agente e sócio português ao me ver a primeira coisa que falou foi “O futuro é vosso” . Esses paises são vistos hoje como a esperança de novos mercados, novos negócios e intercâmbio. Não fico totalmente feliz com isso e vou explicar porquê.

A Europa é um mercado lindo, aberto, curioso, importantíssimo para o desenvolvimento internacional das carreiras dos grupos brasileiros. Consegue absorver muito bem o mainstream nacional, bem como artistas completamente desconhecidos. Sempre vai ter um palco, uma casa, um teatro para esses artistas. A Europa sem dinheiro significa que a música menos acessível, ficará de lado. Com cachês baixos, as bandas estrangeiras terão dificuldades de circular, os cachês europeus sempre foram bons e fundamentais para a sustentabilidade das turnês. Há muito o que se preocupar com essa situação, principalmente as bandas que estão começando agora a querer sair.

O lado que poderia nos deixar feliz, de ouvir que o futuro é do Brasil, depende do que se pretende. Se os europeus ao dizerem isso trazem alguma expectativa de descobrir o mercado brasileiro, de inserir seus artistas aqui, aí a coisa complica. Diferentemente da Europa, o Brasil é bem fechado para a música estrangeira, com exceção dos hits comerciais crônicos americanos, claro, e alguns ingleses de primeira linha. O Brasil, em sua maioria, não está interessado em conhecer a nova música portuguesa, alemã, espanhola, italiana e por aí vai. É triste, mas é fato, com pequenas exceções. Se os produtores europeus quiserem entrar no mercado brasileiro terão que buscar  apoios nos bureax de exportação de seus paises, que são exemplos de atuação no mundo todo, mas, sem dinheiro, como eles vão atuar agora?

Outro fato WOMEXicano, conseqüência natural do achatamento do mercado da música no mundo, foi a desproporção entre compradores e vendedores presentes na Feira. Há 3 anos, essa proporção era de 50% para 50%, hoje, a quantidade de comprador não passa de 30%. Para alguns segmentos é menor que 10%, como é o caso de parceiros para distribuição, edição e licenciamento de disco. Virou uma raridade encontrá-los e quando encontramos, as respostas não são animadoras.

A equação, nesse momento, não se fecha: temos agentes que podem e querem vender shows, mas, eles ainda querem que o grupo tenha distribuição lá fora, mas, os grupos não acham quem lancem seus discos lá. Aí permanece a dúvida: Se o mercado da venda de discos caiu radicalmente, se as gravadoras, quando fecham algum contrato, não dão mais nenhum tipo de suporte para turnês, porque ainda é tão importante ter os discos lançados fora?  Alguns diriam que seria pela mínima promoção que um selo pode fazer para divulgar um artista, o que ajuda na venda dos shows. Outros diriam que é pela sensação de ocupação, dando mais segurança aos próprios agentes e contratantes.

Enquanto isso, o manager corre pra lá e corre pra cá e tenta manter o network vivo, apesar das crises, e procura os agentes mais sensíveis e os contratantes com mais visão, sempre deixando claro pra banda o tamanho da perna dela e as possibilidades reais. Pelo menos é assim que tenho feito. Pois como o vento, acredito que isso é assim hoje, amanhã a coisa muda.

21/10/2010

Produção Cultural no Brasil

Melina Hickson from FLi Multimídia on Vimeo.

O Projeto Produção Cultural no Brasil entrevistou 100 pessoas da área cultural do País. Esta entrevista com 1 hora de duração vai estar na íntegra no livro do Projeto. Falei sobre o mercado da música na atualidade, detalhes, idéias, sintomas, possibilidades.

Contei um pouco da minha experiência com a música no mundo, com a música que eu trabalho e que me encanta. Falei do dia-a-dia do trabalho, das surpresas e do momento precioso que estamos vivendo.

No fim da longa entrevista com os dois mentores do Projeto, Fabio Maleronka Ferron e Sergio Cohn, eles fazem um pequeno vídeo de 6 minutos onde a jornalista Georgia Nicolau nso entrevista tocando em pequenos pontos citados ao longo da hora anterior. Isso vira este filminho que está aqui.

Vale à pena conhecer o Projeto Produção Cultural no Brasil , assistir alguns desses videos com algumas pessoas que fazem cultura no Brasil e de preferência ler as íntegras das entrevistas. Há muito o que aprender!