Avante. por mim.

Siba, sabe o que percebi? Que AVANTE é um passeio por sua vida desde muitos tempos atrás. Dizer que este é um disco totalmente novo e inusitado é deixar de lado uma enorme história, que vem desde os Ambrósios, passando pela Fuloresta, até hoje. Este é um disco ousado sim, o show é mais ainda. Depois de 8 anos tranqüilo, livre, solto, você voltou a se desafiar, assim quando refez o caminho São Paulo – Nazaré da Mata, para formar a Fuloresta. Agora, resolveu pegar a guitarra e fazer um disco tão pessoal, passando o show, ensimesmado, cantando letras infinitas, e tocando um instrumento sem fim nas sua mãos. Guitarra que você sempre tocou mesmo antes do Mestre Ambrósio e muita gente nem lembrava.

AVANTE sempre foi o nome desse projeto. Sim, porque não conheço ninguém mais capaz de desafiar a si mesmo, a sua coragem é este disco.

Pra mim, foi incrível descobrir que ARIANA é uma música sobre o Afeganistão, uma declaração de amor para um mundo tão longe, quando pensei que era uma declaração de amor para alguém. Mais lindo ainda foi saber que uma das músicas que mais me encantam no disco você já tinha há tantos anos e nunca gravou, mesmo Biu Roque dizendo para você gravar aquela ciranda tão linda. BRISA, ciranda ou não, por fim, está gravada.

Fico pensando como se chegou nesse formato inusitado de banda… uma tuba, em vez de um baixo? Ah sim, lembro! Fizemos testes com alguns baxistas, eram ótimos, mas, na veia corre o sangue do sopro, dos metais, e tínhamos recebido um presente meses antes, Léo havia entrado na Fuloresta e tocava super bem, porque não substituir o grave do baixo pela tuba?

O vibrafone foi idéia do Catatau? O Antônio foi idéia do Benjamim? Acho que os dois juntos formam a composição certa. O mineirinho tocava vibrafone e teclado como ninguém, conversava e tinha muita vontade…agora ele está maestrando com você o processo, o show, a nova vida, daqui pra frente.

A bateria foi mais difícil, era pra ser desde sempre junto com a guitarra, principalmente porque a idéia era não ter percussão…aí, pro disco,  veio o Samuca que fez bonito mas foi embora do País. Pros shows então, a gente encontrou Serginho que trouxe um peso e uma agilidade bem pessoais para a bateria.

E suas guitarras? É sério que a gente vai ter que viajar com três? Eu tava tão tranqüila com o formato da Fuloresta…tão simples…nem passagem de som precisávamos fazer mais. Tudo bem, quando você resolveu se desafiar nesse projeto eu deveria saber que seria a próxima a ser desafiada…tava tudo tranqüilo demais.

AVANTE traz uma exposição absoluta do seu processo de criação, como compositor e como músico. Lembro quando você estava no início desse processo, Caio e Pablo chegaram dizendo que queriam acompanhar tudo, achamos aquilo interessante, mas, não sabíamos o quanto toda aquela perseguição seria importante. Caio e Pablo foram muito mais do que testemunhas de um processo de criação, eles foram, através de seus olhares, os responsáveis por registrar cada momento desse disco, cada momento seu, cada estrada por onde você caminhou e isso tudo findou nos Balés da Tormenta.

Avante é muito mais que um disco, é um repertório de vida, é um recorte de alguns anos dela, mesmo as coisas que você quer esquecer. PREPARANDO O SALTO é a prova do processo, é a prova do período. BRISA, apesar de já existir, caiu perfeitamente no momento que você vivia. ARIANA traduz sua fúria pelos livros e sua admiração pela guerrilha , pelas tradições e pela coragem dos povos. BEIRA-MAR mostra que a ciranda pode ter várias faces, muito além da percussão, do sopro, da roda.

A BAGACEIRA e CANOA FURADA tem o pé no carnaval e num momento de sua vida.Como pode alguém rir tanto de sua própria tragédia? MUTE vem pra dizer que muitas vezes é melhor ficar calado,  mudo e esperar o tempo passar. A idéia de UM VERSO PRESO era ser uma vinheta, lembra? Mas, pode uma música ser uma vinheta, uma vez tocada por você e cantada por Lirinha? Não creio.

Então, a música AVANTE. A arte de cantar, com todas as suas peripécias, perspectivas, possibilidades, arrebatamento, ironia, ambição e veneno.  Ouvir esta letra é perceber o tamanho do que achamos ser tão simples, cantar. AVANTE é a música que mais me intriga no disco, e, claro, a que você escolheu para começar o show. Eu podia pensar que seria pesada demais pra começar um show, mas, quando a vi pela primeira vez em ação, além de ter ficado tensa, como todos os outros da audiência, pensei: é ela mesma, tá certo! É um tapa na cara. Depois dela – e do suspiro do público – o que vem depois, é o descobrimento de um novo mundo, todo pronto, todo seu, entregue pra quem quiser conhecer.

QASIDA mostra esse mundo profundamente. Um mundo que começou distante, no agreste de Pernambuco e que, há muito, mesmo não sendo mais, por você, habitável, serve como ponto principal de sua inspiração como cantor e compositor, com a poesia rimada sendo a base principal de suas letras.

Mas, certo mesmo, nesse mundo todo que você recriou para viver, morar, tocar e cantar, o seu filho Vicente, cheio de BRAVURA E BRILHO, é a prova de que independente de quantos saltos você der, de quantas brisas tomar, de quantas canoas furarem, de quantos versos presos, é por ele principal e especialmente que você irá AVANTE.

Ariana. Um comentário. Para Patrick, com carinho.

Sempre quis entender a mania dos jornalistas, da mídia, de rotular, de segmentar, de dar título, de compartimentar a música. Nos primeiros instantes da criação, a próxima pergunta pode ser: o que estou criando? Que tipo de nome, de gênero que eu dou a isso?

Preocupando-se ou não com isso, o artista ou produtor ou ambos, sabem que terão que passar os próximos 3 anos de suas vidas respondendo a esta mesma pergunta, que ritmo? Que conceito? Que tipo de música está sendo feita?

Ao enquadrar sua criação, o artista é obrigado a deixar de lado tanta coisa a mais, tanta referência, tanta inspiração. Ao enquadrar, o resultado é um recorte miúdo de um ambiente infinitamente superior, mais complexo.

Sinto-me à vontade para falar sobre isso, desde que comecei há vários anos a acompanhar de perto a carreira de Siba. Acompanhar atentamente os processos dele como compositor, arranjador, instrumentista , percebendo a grandeza de tudo, as diferentes vias de acesso à criação, as múltiplas formas de inspiração para compor, o imenso caminho até o término de uma canção. Ao perceber tudo isso, me parece um desperdício ou, às vezes, uma precipitação, nos forçar a dizer, em uma ou duas palavras, o que danado é isso tudo.

Isso vem a maioria das vezes da mídia tradicional, toda rápida, toda urgente, toda imediata, condensada no tamanho do texto que a ausência do anúncio comercial permitiu ou na dependência da hora do início da novela. Sinto até um certo sentimento de pesar pelos colegas jornalistas que gostariam de ir mais além e não podem. Mas, quando isso parte de um ambiente mais livre, mais independente, aí fico achando que é uma mania mesmo.

Fui movida a escrever este post, depois de ler no facebook, uma sentença interessante. Depois que postamos um teaser de 4 minutos de uma música do novo disco de Siba, Ariana, li um comentário que dizia que o disco fazia parte de uma era pós – brega. Li aquilo que foi escrito por Patrick Tor4, meu querido amigo, uma pessoa que adoro muito, li e passei direto. Mas, depois, provocada, li de novo, e aí fiquei pensando. Patrick escreveu o que ele sentiu ao ver o teaser, ele fez uma análise pessoal sobre o que sentiu na música e, por ser um cara muito ligado ao ambiente do tecnobrega, enquadrou então o novo disco de Siba numa era criada por ele, fofa inclusive, chamada de pós-brega, onde outros artistas também estariam, Lirinha, Cidadão Instigado, entre outros.

Na verdade, não tenho nada contra o que Patrick escreveu e nem acho ruim ele ter sentido isso da música. Mas, isso me fez pensar sobre essa necessidade do rótulo, de criar compartimentos, de segmentar, de reduzir algo que, na minha opinião, está tão além.

A intrigante urgência para se definir algo que nem foi lançado ainda, que nem foi ouvido ainda. Patrick viu apenas um teaser de uma música, não tem nem ela completa, não é um clipe. De um disco inteiro, ele teve acesso a apenas uma canção e o disco entrou na lista de uma nova era. Para o meu queridão Patrick que me provocou sem saber, e para todos os outros que tem interesse em conhecer o disco Avante, de Siba, eu diria que tentar enquadrá-lo em qualquer ritmo, movimento, mundo, segmento, vai dar um trabalho do cão. Mas, se alguém chegar a alguma conclusão, por favor, nos diga, quem sabe não nos ajuda a responder à mesma pergunta pelos próximos 3 anos de nossas vidas.

Assista ao Teaser Ariana:

SIBA – Ariana from DobleChapa on Vimeo.

Produção Cultural no Brasil

Melina Hickson from FLi Multimídia on Vimeo.

O Projeto Produção Cultural no Brasil entrevistou 100 pessoas da área cultural do País. Esta entrevista com 1 hora de duração vai estar na íntegra no livro do Projeto. Falei sobre o mercado da música na atualidade, detalhes, idéias, sintomas, possibilidades.

Contei um pouco da minha experiência com a música no mundo, com a música que eu trabalho e que me encanta. Falei do dia-a-dia do trabalho, das surpresas e do momento precioso que estamos vivendo.

No fim da longa entrevista com os dois mentores do Projeto, Fabio Maleronka Ferron e Sergio Cohn, eles fazem um pequeno vídeo de 6 minutos onde a jornalista Georgia Nicolau nso entrevista tocando em pequenos pontos citados ao longo da hora anterior. Isso vira este filminho que está aqui.

Vale à pena conhecer o Projeto Produção Cultural no Brasil , assistir alguns desses videos com algumas pessoas que fazem cultura no Brasil e de preferência ler as íntegras das entrevistas. Há muito o que aprender!