Tássia Reis: muito além do rap
Autêntica, corajosa e, principalmente, sem tempo para a estupidez
Com uma carreira em ascensão, uma das principais vozes femininas do rap brasileiro, Tássia Reis vem aculando hits que expressam as dores e delícias da existência, sem clichê, com bom humor e muito pouca simpatia pelo status quo
Anos atrás, por um desses acasos da vida, uma jovem em início de carreira conseguiu encontrar uma das suas grandes inspirações, que deu a ela o seguinte conselho: seja sempre honesta e verdadeira. E assim foi. Preta, plena, poderosa e sem nada a provar, Tássia Reis tem seguido as palavras que ouviu de Erykah Badu e seu trabalho é um reflexo disso. Autêntico e verdadeiro são adjetivos que descrevem bem tudo que sai da mente e da boca da artista que iniciou sua carreira como rapper numa época em que a cena ainda era um território predominantemente masculino.
Sem se importar em desafiar o status quo ou em se deixar estigmatizar, Tássia vem, desde sempre, e, num movimento crescente, absorvendo o mundo ao seu bel prazer, rejeitando papéis convencionais e padrões estéticos para seguir o seu caminho como bem entender e, principalmente, sem cair em clichês. Engajada por espontaneidade e não por obrigação, a artista tem se posicionado de forma ativa sobre racismo, desigualdade social e gordofobia, mas também sobre relacionamento, sexo e amor. Assim, não é falso dizer que a artista traz para seu trabalho a vida como ela é, em toda a sua completude de temas.
O mesmo se aplica na esfera musical. Trazendo uma grande herança da cultura afro-brasileira, particularmente o samba e o pagode, somada a uma forte influência de artistas que representam, em diferentes vertentes musicais, a cultura black em toda a sua magnitude, indo da já mencionada Erykah Badu a Beyoncé e Rihanna, passando por ícones nacionais brasileiros como Djavan e Alcione, a artista, reconhecidamente uma das vozes de rap mais proeminentes do Brasil, nunca se satisfez com lugares marcados, o que permitiu que ela se mantivesse aberta para explorar outros caminhos.
Experimentando todas as opções disponíveis no cardápio, Tássia faz seu próprio buffett musical com o que tem em mente, em mãos, por isso a matéria prima não lhe falta. Crescida num ambiente onde o samba estava sempre presente, incluindo a vibe de muitos carnavais com seus sambas enredos, a artista foi ao longo da sua jornada explorando outras possibilidades, como o jazz. Assim, há 10 anos ela lançava a faixa Meu RapJazz (2013), que definitivamente a colocou diante de holofotes internacionais. Mais uma vez impecável, a narrativa é limpa e ácida como manda um bom rap e a melodia, claro, traz a sofisticação do jazz. Enquanto o piano toca, suave, mantendo a proposta elegante da faixa, a voz, também suave e absolutamente sensual, manda a real: “Não tenho tempo a perder, quero vencer por mim E lutar por você Se depender de mim, vou merecer O respeito que aprendi que devo lutar pra ter Isso me fez fortalecer, Se não fosse sagaz, tava em outro rolê”. Simples assim, o recado está dado.
Seguindo sua jornada exploratoria, “Próspera”, seu terceiro álbum, lançado em 2019, que foi aclamado pela crítica especializada e considerado um dos melhores discos do ano pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte, ilustra bem a capacidade da artista flertar com outros ritmos e expor, com um certo deboche e , a sua existência ou melhor, a de todos nós. Em Dollar Euro, por exemplo, Tassia não perde a oportunidade de ironizar a sua própria ascensão econômica e, ainda, escancarar o racismo. “Não aguentam com as pretas/ Que trampam e fazem din din/ Só pensam que minas como eu são para servir (Quem?)”
Acostumada a mandar a real, Tássia não segue nenhuma agenda, a não ser a sua. Dançando conforme a sua música, a cada trabalho ela se mostra mais livre, sem filtro, como foi o caso de trabalho lançado em 2022, Rude. Lançado num momento em que o país ainda estava sob o efeito de uma energia bastante pesada, sendo conduzido por uma política conservadora e extremista, se expressar era ainda mais urgente e necessário.
Desta forma, trazendo um mix de drill com funk carioca e samba, a faixa é uma mistura explosiva de verdades inteiras e batida precisa, onde a artista detona temas como dinheiro, carreira, estilo de vida, padrões estéticos e por aí vai, fazendo com que Rude entre pelos ouvidos sem pedir licença, quase como uma porrada. O mais interessante, no entanto, é que ouvir uma vez é pedir mais. “Hahahahahahahaha/ Ai ai, e não tá gostosinho?” provoca ela, encerrando a canção e acertando, mais uma vez, em cheio. Sim, ouvir Rude é mais que gostosinho, é uma experiência que, de uma forma ou de outra, cria uma conexão com a protagonista, fazendo com que o ouvinte queira saber mais daquele “role”, talvez até fazer parte. Esse é um dos talentos de Tássia, conseguir engajar o público com sua narrativa que, rude ou não, só entrega verdades. Como não querer mais?
“Eu não escolhi o samba para mostrar minha outra versão, acho que ele que me escolheu e eu, na verdade, demorei para aceitar e revelar isso dentro de mim”, revelou Tássia ao lançar, em setembro de 2023 o single Ofício de Cantante. “Essa canção acessou muitos lugares dentro de mim, é sobre a minha profissão, meu ofício de cantante, o que eu escolhi mas que também me escolheu”, disse.
Em março de 2024 Tássia Reis lançou EP comemorativo. Bem Longe do Fim é a celebração dos 10 anos da minha carreira, contando uma história de amadurecimento e de experimentações sonoras. O EP recria e revive 3 importantes canções do início da minha carreira. Meu Rap Jazz virou Bem Longe do Fim. No Seu Radinho virou Mais que Refrão. E Good Trip virou Vida de Atriz. Uma mistura do passado com o presente, também mostrando o que me tornei nos últimos anos, de uma dançarina, para uma compositora, cantora, comunicadora, atriz.
A escolha dessas três músicas como base inicial desse projeto e a transformação delas em novas canções, com novas melodias, novas sonoridades e a inserção de partes novas nas letras vai permitir uma conexão também com meu início. A ideia é despertar no meu público mais recente o interesse pela minha obra com um todo. Bem como me reconectar com meus mais antigos fãs.
Nesses últimos 10 anos, eu, uma garota do interior, periférica e preta, estava tão preocupada em ter um caminho, uma carreira, que mal pude apreciar a beleza das primeiras conquistas. A primeira vez que ouvi meu som no rádio, a primeira vez que meu clipe passou na MTV, a primeira vez que toquei num festival, foram tantas primeiras vezes e eu só conseguia pensar no próximo passo, preocupada em fazer tudo dar certo, e quando dava, já preocupada com a próxima demanda.
“Bem longe do fim” é a minha chance de comemorar todas as pequenas e grandes conquistas que eu não pude celebrar. Essa vitória é minha e essa comemoração é meu passo presente!
A faixa “Mais que Refrão”, tem participação do Rashid e as músicas foram produzidas por Felipe Pizzu e por mim. Múltipla, como eu, a sonoridade passeia na Disco House, Amapiano, Afrobeats, Ijexa, Neo Soul e, claro, meu Rap e meu Jazz.
O lançamento de Bem Longe do Fim e a turnê em homenagem aos 50 anos de Alcione, que Tássia fez nos últimos dois anos, foi o caminho natural para o lançamento dos single Ofício de Cantante, o mais recente Asfalto Selvagem, lançado em agosto de 2024 e claro, tudo desaguando no seu álbum Topo da Minha Cabeça que foi lançado dia 09 de setembro de 2024.
Assim, num crescente, Tássia segue firme em seu protagonismo que pode vir embalado em jazz, rap, drill, funk, pop, samba, R&B, tanto faz porque o que faz essa artista ser o que é, gigante em seu talento, é sua capacidade de contar histórias, de se fazer ouvir acima de outras vozes, deixando seu recado, rude, suave, sensual, como queira, ou melhor, como ela quer, por que uma coisa é certa, Tássia Reis é a boss, é ela quem está no comando.
Em 2024, Tássia lançou Topo da Minha Cabeça, seu 5o album.
Discografia
Tássia Reis 2013
Outra Esfera 2016
Próspera — Tássia Reis 2019
Próspera D+ 2021
Topo da Minha Cabeça – 2024
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