FINA PRODUÇÃO |

13/02/2012

O açude sangrou e o carnaval chegou!

Vôo São Paulo – Recife, dia 11 de fevereiro de 2012.

Estou voltando para Recife depois de dois shows de estréia do disco Avante, de Siba em São Paulo. Depois de quase 2 anos de trabalho, lançamos oficialmente o disco ao público. Apesar de todo planejamento, com o lançamento para a imprensa marcado para o dia 9 de janeiro de 2012, o disco inteiro vazou na internet no dia 01 de janeiro. Como estávamos prontos para lançar, a única coisa que tivemos que fazer foi adiantar tudo, mas, como estava tão pronto, conseguimos agir rápido e muitos acharam que a gente tinha soltado o disco na internet propositadamente. Sendo do jeito que tenha sido, o que importa é que o vazamento acabou trazendo ótimos resultados pra gente.

Na noite do reveillon, o último e-mail que vi, na primeira madrugada de 2012, vinha de Siba e o titulo era : “o açude sangrou”, antes de abrir sabia que o disco tinha vazado, captei a metáfora de cara e nada me restava a não ser ir dormir, depois de ver o disco inteiro pra download em alta qualidade no blog que Siba havia visto. Na manhã do dia 01, uma dezena de blogs já tinham disponibilizado o disco, no fim do dia, mais dezenas, e assim por diante, facebook, twitter, todos comemorando o download e a oportunidade de ouvir o tão anunciado disco. Assistimos a isso, curtindo,  participando e vendo como aproveitar tudo.

De lá pra cá, é uma repercussão linda, uma comoção em algumas situações. A imprensa tradicional abraçou o trabalho com muito entusiasmo e, mais do que isso, com muito entendimento da coisa toda. Os blogs então! As melhores resenhas.

Pois bem, agora a imprensa já conhece, há quase dois meses o público que curte Siba também, a turma de Recife e de São Paulo já pôde assistir ao show e aqui se encerra o lançamento oficial, apesar de continuarmos em fase de lançamento.

Esta semana é a pré-carnavalesca, temos 4 shows agendados no carnaval. Dois deles em duas cidades do interior de Pernambuco. Numa delas, o Prefeito quis saber se este show de Siba é show de carnaval, que se não fosse ele não queria. Respondi dizendo que este é o show do disco novo de Siba. Esta cidade investe em cachês de bandas dos mais variados tipos, axé, pagode, passando por brega, e outros tipos de som durante o carnaval, então foi intrigante eu ter que responder esta pergunta…fiquei pensando se ele perguntou o mesmo pras outras bandas, anyway, respirar fundo e responder dizendo que o disco está disponível para download no site de Siba e que ele poderia ouvir e concluir se é ou não um show de carnaval…não serei eu a dizer a ele qualquer coisa…e se ele resolver que não quer, tudo bem, vou fazer o quê? Apenas continuar intrigada….

O que nos espera nestes 4 shows de carnaval? Um público que acompanha Siba e que sabe o que vai encontrar? Ontem no show de São Paulo, todos se levantaram e dançaram uma boa parte do show…outros preferiram curtir a poesia sentados, percebendo os arranjos mais sensíveis, que podem ser mostrados em harmonia dentro de um teatro de acústica ótima e com um equipamento de som na medida. Mas no carnaval? Vamos ver o que o Prefeito acha do show, mas, o mais legal vai ser ver o que o povo acha do show, pois para nós – se as pessoas estão dançando, paradas, olhando, bebendo, caretas ou não – o que importa é o que elas sentem daquilo e não como elas se manifestam…

Feliz carnaval pra todos!

04/01/2012

Avante. por mim.

Siba, sabe o que percebi? Que AVANTE é um passeio por sua vida desde muitos tempos atrás. Dizer que este é um disco totalmente novo e inusitado é deixar de lado uma enorme história, que vem desde os Ambrósios, passando pela Fuloresta, até hoje. Este é um disco ousado sim, o show é mais ainda. Depois de 8 anos tranqüilo, livre, solto, você voltou a se desafiar, assim quando refez o caminho São Paulo – Nazaré da Mata, para formar a Fuloresta. Agora, resolveu pegar a guitarra e fazer um disco tão pessoal, passando o show, ensimesmado, cantando letras infinitas, e tocando um instrumento sem fim nas sua mãos. Guitarra que você sempre tocou mesmo antes do Mestre Ambrósio e muita gente nem lembrava.

AVANTE sempre foi o nome desse projeto. Sim, porque não conheço ninguém mais capaz de desafiar a si mesmo, a sua coragem é este disco.

Pra mim, foi incrível descobrir que ARIANA é uma música sobre o Afeganistão, uma declaração de amor para um mundo tão longe, quando pensei que era uma declaração de amor para alguém. Mais lindo ainda foi saber que uma das músicas que mais me encantam no disco você já tinha há tantos anos e nunca gravou, mesmo Biu Roque dizendo para você gravar aquela ciranda tão linda. BRISA, ciranda ou não, por fim, está gravada.

Fico pensando como se chegou nesse formato inusitado de banda… uma tuba, em vez de um baixo? Ah sim, lembro! Fizemos testes com alguns baxistas, eram ótimos, mas, na veia corre o sangue do sopro, dos metais, e tínhamos recebido um presente meses antes, Léo havia entrado na Fuloresta e tocava super bem, porque não substituir o grave do baixo pela tuba?

O vibrafone foi idéia do Catatau? O Antônio foi idéia do Benjamim? Acho que os dois juntos formam a composição certa. O mineirinho tocava vibrafone e teclado como ninguém, conversava e tinha muita vontade…agora ele está maestrando com você o processo, o show, a nova vida, daqui pra frente.

A bateria foi mais difícil, era pra ser desde sempre junto com a guitarra, principalmente porque a idéia era não ter percussão…aí, pro disco,  veio o Samuca que fez bonito mas foi embora do País. Pros shows então, a gente encontrou Serginho que trouxe um peso e uma agilidade bem pessoais para a bateria.

E suas guitarras? É sério que a gente vai ter que viajar com três? Eu tava tão tranqüila com o formato da Fuloresta…tão simples…nem passagem de som precisávamos fazer mais. Tudo bem, quando você resolveu se desafiar nesse projeto eu deveria saber que seria a próxima a ser desafiada…tava tudo tranqüilo demais.

AVANTE traz uma exposição absoluta do seu processo de criação, como compositor e como músico. Lembro quando você estava no início desse processo, Caio e Pablo chegaram dizendo que queriam acompanhar tudo, achamos aquilo interessante, mas, não sabíamos o quanto toda aquela perseguição seria importante. Caio e Pablo foram muito mais do que testemunhas de um processo de criação, eles foram, através de seus olhares, os responsáveis por registrar cada momento desse disco, cada momento seu, cada estrada por onde você caminhou e isso tudo findou nos Balés da Tormenta.

Avante é muito mais que um disco, é um repertório de vida, é um recorte de alguns anos dela, mesmo as coisas que você quer esquecer. PREPARANDO O SALTO é a prova do processo, é a prova do período. BRISA, apesar de já existir, caiu perfeitamente no momento que você vivia. ARIANA traduz sua fúria pelos livros e sua admiração pela guerrilha , pelas tradições e pela coragem dos povos. BEIRA-MAR mostra que a ciranda pode ter várias faces, muito além da percussão, do sopro, da roda.

A BAGACEIRA e CANOA FURADA tem o pé no carnaval e num momento de sua vida.Como pode alguém rir tanto de sua própria tragédia? MUTE vem pra dizer que muitas vezes é melhor ficar calado,  mudo e esperar o tempo passar. A idéia de UM VERSO PRESO era ser uma vinheta, lembra? Mas, pode uma música ser uma vinheta, uma vez tocada por você e cantada por Lirinha? Não creio.

Então, a música AVANTE. A arte de cantar, com todas as suas peripécias, perspectivas, possibilidades, arrebatamento, ironia, ambição e veneno.  Ouvir esta letra é perceber o tamanho do que achamos ser tão simples, cantar. AVANTE é a música que mais me intriga no disco, e, claro, a que você escolheu para começar o show. Eu podia pensar que seria pesada demais pra começar um show, mas, quando a vi pela primeira vez em ação, além de ter ficado tensa, como todos os outros da audiência, pensei: é ela mesma, tá certo! É um tapa na cara. Depois dela – e do suspiro do público – o que vem depois, é o descobrimento de um novo mundo, todo pronto, todo seu, entregue pra quem quiser conhecer.

QASIDA mostra esse mundo profundamente. Um mundo que começou distante, no agreste de Pernambuco e que, há muito, mesmo não sendo mais, por você, habitável, serve como ponto principal de sua inspiração como cantor e compositor, com a poesia rimada sendo a base principal de suas letras.

Mas, certo mesmo, nesse mundo todo que você recriou para viver, morar, tocar e cantar, o seu filho Vicente, cheio de BRAVURA E BRILHO, é a prova de que independente de quantos saltos você der, de quantas brisas tomar, de quantas canoas furarem, de quantos versos presos, é por ele principal e especialmente que você irá AVANTE.

18/10/2011

I hear and I forget. I see and I remember. I do and I understand.

De um despretencioso cafezinho sobre a cultura pernambucana, o maracatu e Nazaré da Mata, a um dos maiores desafios da Fina. A idéia era só conhecer Siba, mas, o Tropenmuseum acabou conhecendo a Fina Produção como um todo.

Depois de receber o perfil do profissional que eles procuravam, li aquelas páginas algumas vezes. Na primeira, achei que tinha na minha frente um tratado sobre o que é ser um produtor do mais alto nível. Na segunda vez, já achei que não poderia dar conta, mas, na terceira vez tava lendo em conjunto com minhas parceirinhas na Fina, Pérola e Isa, e os olhos de ambas brilharam e veio então a decisão: porque não?

A Fina está, desde então, fazendo a produção da exposição Mix Max Brazil e é a representante local do Tropenmuseum Jr. para todos os assuntos do projeto.

Este museu fica em Amsterdam, é especializado em crianças entre 6 e 13 anos e depois de ter realizado algumas exposições sobre China, Mumbai, Ghana, Bolívia, Austrália, entre outros, resolveram dedicar 4 anos de suas vidas ao Brasil. Sim, 4 anos, um e pouco de produção e pesquisa e dois e meio de exposição. A Mix Max Brazil ficará em cartaz entre 2012 e 2015. Neste período, cada criança que entrar no museu entrará num pedaço do Brasil, a forma como o espaço inteiro é vestido é impressionante e o mais bacana do conceito é que, apesar de ser num museu, nada é estático, nada é parado. As crianças fazem uma imersão no ambiente brasileiro, com foco em Pernambuco. De cozinhar tapioca a dançar, tecer, fazer xilogravuras, tudo elas devem experimentar para que seja algo memorável. O slogan do Museu é: “I hear and I forget. I see and I remember. I do and I understand”.

A Mix Max Brasil traz a sensível e hábil curadoria de Liesbet Ruben, holandesa fascinante que consegue ver o brilho de todas as coisas, mesmo que no escuro. A curadoria dela tem trazido para a Fina diariamente um novo aprendizado, é extremamente sagaz e tudo que é pensado não tem nem de longe cara de universo infantil, o que nos deixa ainda mais intrigadas. Mas, como mãe que sou, sei perfeitamente que quando quero impulsionar meu filho para outro ambiente, e buscar nele um interesse e perspicácia, sei que não é mostrando mickeys ou bakugans, e sim algo muito mais subjetivo, mais subliminar, definitivamente as impressões dele são sempre muito mais surpreendentes do que quando ele opera na atmosfera do óbvio.

As crianças holandesas terão a oportunidade de ver um Brasil e um Pernambuco que as daqui não têm. Sob o olhar aguçado de uma curadoria e de uma cenografia – Aby Cohen- bem distintas, inusuais, mas, extremamente lúcidas. Para a Fina, resta acompanhar esse processo como quem acompanha aula de doutorado e produzir tudo, tudo mesmo que sai da cabeça da dupla. Colocar os ítens num container gigante, em navio rumo ao porto de Roterdam e, claro, vez e outra, pois não somos blasés, sugerir novas idéias, novas imagens, novas texturas, contribuindo com elas.
Estamos todas curtindo esse desafio.

Exposição sobre a China no Tropenmuseum Jr.

09/10/2011

Ariana. Um comentário. Para Patrick, com carinho.

Sempre quis entender a mania dos jornalistas, da mídia, de rotular, de segmentar, de dar título, de compartimentar a música. Nos primeiros instantes da criação, a próxima pergunta pode ser: o que estou criando? Que tipo de nome, de gênero que eu dou a isso?

Preocupando-se ou não com isso, o artista ou produtor ou ambos, sabem que terão que passar os próximos 3 anos de suas vidas respondendo a esta mesma pergunta, que ritmo? Que conceito? Que tipo de música está sendo feita?

Ao enquadrar sua criação, o artista é obrigado a deixar de lado tanta coisa a mais, tanta referência, tanta inspiração. Ao enquadrar, o resultado é um recorte miúdo de um ambiente infinitamente superior, mais complexo.

Sinto-me à vontade para falar sobre isso, desde que comecei há vários anos a acompanhar de perto a carreira de Siba. Acompanhar atentamente os processos dele como compositor, arranjador, instrumentista , percebendo a grandeza de tudo, as diferentes vias de acesso à criação, as múltiplas formas de inspiração para compor, o imenso caminho até o término de uma canção. Ao perceber tudo isso, me parece um desperdício ou, às vezes, uma precipitação, nos forçar a dizer, em uma ou duas palavras, o que danado é isso tudo.

Isso vem a maioria das vezes da mídia tradicional, toda rápida, toda urgente, toda imediata, condensada no tamanho do texto que a ausência do anúncio comercial permitiu ou na dependência da hora do início da novela. Sinto até um certo sentimento de pesar pelos colegas jornalistas que gostariam de ir mais além e não podem. Mas, quando isso parte de um ambiente mais livre, mais independente, aí fico achando que é uma mania mesmo.

Fui movida a escrever este post, depois de ler no facebook, uma sentença interessante. Depois que postamos um teaser de 4 minutos de uma música do novo disco de Siba, Ariana, li um comentário que dizia que o disco fazia parte de uma era pós – brega. Li aquilo que foi escrito por Patrick Tor4, meu querido amigo, uma pessoa que adoro muito, li e passei direto. Mas, depois, provocada, li de novo, e aí fiquei pensando. Patrick escreveu o que ele sentiu ao ver o teaser, ele fez uma análise pessoal sobre o que sentiu na música e, por ser um cara muito ligado ao ambiente do tecnobrega, enquadrou então o novo disco de Siba numa era criada por ele, fofa inclusive, chamada de pós-brega, onde outros artistas também estariam, Lirinha, Cidadão Instigado, entre outros.

Na verdade, não tenho nada contra o que Patrick escreveu e nem acho ruim ele ter sentido isso da música. Mas, isso me fez pensar sobre essa necessidade do rótulo, de criar compartimentos, de segmentar, de reduzir algo que, na minha opinião, está tão além.

A intrigante urgência para se definir algo que nem foi lançado ainda, que nem foi ouvido ainda. Patrick viu apenas um teaser de uma música, não tem nem ela completa, não é um clipe. De um disco inteiro, ele teve acesso a apenas uma canção e o disco entrou na lista de uma nova era. Para o meu queridão Patrick que me provocou sem saber, e para todos os outros que tem interesse em conhecer o disco Avante, de Siba, eu diria que tentar enquadrá-lo em qualquer ritmo, movimento, mundo, segmento, vai dar um trabalho do cão. Mas, se alguém chegar a alguma conclusão, por favor, nos diga, quem sabe não nos ajuda a responder à mesma pergunta pelos próximos 3 anos de nossas vidas.

Assista ao Teaser Ariana:

SIBA – Ariana from DobleChapa on Vimeo.

08/09/2011

A importância de Circular

É fato que as redes sociais e todas as ferramentas disponíveis hoje ( Soundcloud, Bandcamp, o decadente Myspace, o ágil Facebook o mega ágil Twitter e tantas outras) são parceiros indispensáveis das bandas, produtores, artistas. Mas, circular é fundamental.

Ficar sentado horas por dia na frente do computador dando um gás em sua rede é básico, circular é imprescindível. É circulando pela comunidade, pela cidade, pelo estado, pelo país e pelo mundo que os grupos e produtores vão adquirir estrada, experiência, conhecimento, ampliar seu network pessoal e, principalmente, ampliar sua visão de mundo.

Ouvir e ver outros grupos, outras iniciativas, outros formatos, outras gerências, tudo isso pode ser uma grande ferramenta para desenvolvimento de suas carreiras ou de suas empresas.

E, se não conseguir tocar com seu grupo, com a banda que você produz, vá assitir, vá participar das palestras, vá ver os shows, leva o disquinho, leva o cartãozinho, tenta marcar uma reunião rápida – nunca passe dos 10 minutos com um promotor, e olhe lá.

Participar de eventos de músicas que não são feitos só de shows é melhor ainda. As convenções podem ser grandes aliadas, nelas, você pode encontrar os festivais mais interessantes, os melhores centros de música, andando na sua frente, comendo do seu lado ou dançando perto de você…os programadores e diretores realmente participam desses eventos em busca de nomes pros seus projetos…Vale a pena investir e ir. Eu, nunca me arrependi.

Vão aqui algumas dicas:

www.circulart.org

www.womex.com

sxsw.com

latinalternative.com

www.feiradamusica.com.br

www.mercadocultural.org

27/06/2011

Praça, feitiço, árvore, Argentina ou Caia na estrada e perigas ver ou A aranha arranha a jarra

por Pérola Braz
Fina Produção

6 roteiros, 19 dias, 71 atrações, 88 cidades, 200 profissionais, 270 artistas. Os números dão uma idéia da dimensão do Circuito Sesc de Artes, iniciativa do Sesc SP em parceria com as prefeituras locais do interior, litoral e Grande São Paulo que moveu trabalhos artísticos para todos. A praça como ponto de encontro e de trocas simbólicas é o eixo de uma programação que intervém no espaço público a partir de diferentes linguagens. Música, teatro, circo, dança, artes visuais, literatura, artemídia, arte-educação e perfomances coexistiram em cada roteiro programado neste junho.

Eu, de Pernambuco, parti com Siba e a Fuloresta, um grupo esquisito, um bando de velhotes tocando e um cantor magro que nem palito, com um som, digamos, diferente. Parte do roteiro 1, itineramos por 16 cidades, suspendendo o cotidiano dos passantes, desavisados ou programados pelo projeto. Junto conosco, trabalhos especiais do Grupo Circo Branco (SP/PE), Quik Cia de Dança (MG), Circo Davinci (ARG), Caixa de Imagens (SP), Cia Patética (SP), além do Jogo do Acervo Sesc, o Symbiosis (PA), É Crédito ou Débito (BR) e a vídeo repórter Angélica Muniz (SP).  Diferentes expressões que se encontram, conversam e criam unidade, convivência que se torna uma das cortesias desta ação.

Apresentar o trabalho em praça pública, para a vida espontânea local, dia após dia, é uma oportunidade especial, onde a comunicação do artista se dá de forma completa, junto ao ambiente, sua história, cultura e população.  O Circuito SESC de Artes forma público pegando as pessoas pelo braço e brindando-as com programação e serviço de qualidade. Um presente para todos. Com produção e estrutura mais que decentes, a estrada nos fez carinho. Também comprovamos, o Brasil tem inverno. É geladinho.

Dentre os objetivos do circuito, como ponto de partida, está a consideração da experiência artística e a quebra da rotina no cotidiano das cidades, estabelecendo provocações e diálogos, propiciando novas possibilidades. Além desses aspectos, pretende deixar rastros, nesse cenário urbano, com a passagem do projeto. A arte é apresentada no projeto de forma singular, a fim de proporcionar a construção de uma verdadeira educação que passa também pelos sentidos.

Sentimos.

Vida longa ao Circuito SESC de Artes, às praças, ao feitiço, às árvores e também à Argentina.

*Para conhecer o projeto e os artistas participantes acesse: www.sescsp.org.br/circuito
*A produtora que vos fala segue por Recife e por todo lugar.  Ainda não fugiu com o circo.

19/04/2011

Rosa de Sangue, hoje uma homenagem a Lula Côrtes, sempre, uma homenagem a Seu Zé Rozemblit…

Fiz este documentário como conclusão de curso de jornalismo. Rosa de Sangue narra a história da primeira gravadora totalmente independente da América Latina, a Rozemblit. Sabe conde ela ficava? Na Estrada dos Remédios, aqui em Recife. O artista chegava com sua partitura ou composição embaixo do braço, entrava lá, gravava, criava e produzia a capa, prensava seu disco e saia de lá com ele embaixo do braço.

A Rozemblit e seus subselos foram responsáveis pelos lançamentos dos maiores clássicos do Frevo, nas vozes de Capiba, Nelson Ferreira, através de seu selo Mocambo. Através do selo Solar, capitaneado pelo querido e saudoso Lula Côrtes e Kátia Mesel, a Rozemblit lançou a geração udigrudi da década de 70, como Paêbiru,  Marconi Notaro no Subreino dos Metazoários, Flaviola e o Bando do Sol, Lula Côrtes e seu belíssimo disco, Satwa, trilha sonora básica de Rosa de Sangue e tantos outros.

Essas e outras histórias de glórias e tristezas são narradas nesse pequeno e humilde documentário.

Agradeço sempre a oportunidade única de ter feito as entrevistas diretamente com mente visionária por trás da Rozemblit, o Seu Zé Rozemblit, que não atendia jornalista nenhum,  nem ninguém para falar sobre sua história, mas, me atendeu em sessões terapêuticas que duraram semanas e viraram este documentário aqui. Vale a pena conhecer esse pedaço da história da música brasileira.

Parte 1:

Parte 2:

04/04/2011

Não posso paralisar

Já faz mais de um mês que o Porto Musical acabou.

Estou diariamente no escritório, administrando cobranças dos fornecedores, digo, de todos os fornecedores do Porto Musical, pois nenhum, repito: nenhum deles recebeu por seu serviço no Porto Musical.

Após 40 dias que o evento acabou, continuo lutando diariamente para receber os patrocínios do Porto Musical, para que com eles eu possa pagar a todos que trabalharam no evento. Quando este dinheiro entrar, depois de algum ou muito tempo, o orçamento sofre uma variação enorme pelos juros dos fornecedores  e pelo juros do banco.

Isso se tornou uma prática em nosso setor. Todos os patrocínios saem após o evento, e, a depender dos hormônios burocráticos de cada instituição isso pode durar meses, em algumas situações absurdas, anos.

Ficamos reféns da situação, não há nada que possa ser feito a não ser a cada dia, explicar e explicar a todos que trabalharam que esperem mais um pouco e a cada dia pedir e pedir que as instituições nos paguem.

Em reunião semana passada com uma banda, sobre uma turnê que estamos planejando, mais uma constatação triste. A banda operando no vermelho, os músicos e o produtor chateados porque não recebem seus cachês, shows que aconteceram há mais de 6 meses não saíram, a contabilidade do grupo vai pro espaço e pior que a contabilidade, o que vai pro espaço é a possibilidade de planejamento, item fundamental para se desenvolver a carreira de um grupo seja dentro do Brasil e, principalmente, fora dele.

Não dá para se planejar se os grupos não recebem seus cachês e os eventos não recebem seus patrocínios. Nada anda, os valores mudam, quem sái perdendo é o artista empreendedor, o produtor empreendedor, o setor sofre com essa informalidade sem fim, e não venha me dizer que os informais somos nós !

Ano após ano, sou questionada sobre o Porto Musical pelos meus sócios alemãs da WOMEX: ” Melina você quer continuar com isso mesmo com todas essas questões financeiras?” e eu digo: “Quero continuar, porque se não for assim, não se faz nada no Brasil”. Mas, é uma triste realidade, ver que as instituições passam a vida correndo atrás do rabo, como cachorro desnorteado, em vez de se planejar, de olhar para um ano, para 2 anos, para 4 anos (que seria o certo) e ter no papel tudo que planeja fazer. Neste aspecto, a iniciativa privada dá um banho, aí concluo que o que falta muitas vezes é a mão de um bom executivo em vez de um bom político.

Mas é claro que existem outras questões: uma boa parte desse entra e sái de gestores altera completamente o dinamismo dessas instituições, cada um com seu ritmo, com seu olhar, com seus objetivos, e personalidade. Em comum, todos eles só tem uma coisa: lidar com o passivo que o anterior deixou antes de sair. Outro erro imperdoável: tratar de uma pasta e de um orçamento público como se tivesse tratando de suas contas domésticas, pessoais, como se nunca mais fosse sair daquele cargo, tratar da pasta como se ela fosse para sempre e aí vem sempre a irresponsabilidade dos atos…ou o de empurrar com a barriga as besteiras que  fez pro próximo ajeitar , ou o de adiantar demais as coisas como se o futuro não existisse, aí dana-se a realizar um monte de coisa sem planejamento nenhum de futuro. Uma tristeza só. E a gente que nunca nem entra nem sái, continua sempre aqui lidando com cada um desses como quem assiste sem acreditar uma novela ruim que nunca chega no seu fim.

14/03/2011

O outro lado do carnaval

Passado o carnaval e a comoção do mesmo, tomo a liberdade de escrever este famigerado post.

Antes do carnaval, tomei conhecimento do enorme esforço que a Prefeitura do Recife estava fazendo para manter o nível do carnaval de 2011 o mesmo dos anos anteriores, porque o orçamento havia sido cortado em 1 milhão de Reais. Realmente, 1 milhão de reais é muita coisa, imagina que com esse valor eu poderia realizar duas edições do Porto Musical, sem precisar de outros financiadores. Mas, o mais intessante é que 1 milhão de Reais  se perde no meio dos 30 milhões que foi o orçamento global do carnaval do Recife. Somando-se aos outros 18 milhões que foi o valor oficial divulgado do carnaval de Pernambuco, temos um total de quase 50 milhões de reais investidos na festa.

Claro que o retorno institucional, eleitoral, midiático e turístico é fantástico. Eu que, como louca, realizei o Porto Musical 14 dias antes do carnaval, já tive dificuldades imensas para hospedar todo mundo. O turismo não tem do que reclamar. Mas, e a cultura?

Como viram, não citei, em termos de retorno, a questão da cultura, porque venho aqui falar um pouco sobre o outro lado do carnaval.

O que me traz a este post, é o seguinte: se a prefeitura tivesse fôlego suficiente para realizar um carnaval desse tamanho e ainda mantivesse o mesmo fôlego durante o resto do ano, dando `a Secretaria de Cultura a oportunidade de realizar ações de sustentabilidade da cultura, de suporte para inserção internacional da música daqui, de suporte para circulação nacional, de poder contribuir com um patrocínio decente para eventos também importantes da cidade, realizados pela iniciativa privada, pela sociedade civil, seria ótimo, perfeito. Mas, não é isso que acontece. Para realizar a festinha de 4 dias, a Prefeitura investe um valor colossal e no resto do ano a Secretaria de Cultura fica sem orçamento digno, para nada. Pelo menos, as respostas negativas `a essas solicitações vem sempre acompanhadas dessa justificativa: “o carnaval levou tudo”.

O próprio Porto Musical passou por isso. Por conta da diminuição do orçamento de 31 milhões para 30 milhões ;) , a prefeitura não pôde contribuir com um patrocínio em dinheiro para ajudar o Porto Musical. O Porto trouxe para Recife profissionais importantíssimos da música do mundo, programadores de casas, instituições e teatros importantes, gente de mais de 10 diferentes países vieram e estão voltando para suas casas, depois de conhecer um pouco do nosso carnaval, da nossa cultura, essa é a maior contrapartida que o Porto Musical pode dar para nossa cidade , para nosso estado. É uma ação miltiplicadora, de longo prazo, que, pelos próximos anos, terá resultados, está longe de ser  puro entretenimento.

É claro que a Prefeitura continuou apoiando o Porto Musical, a estrutura de palco, som e luz da Praça do Arsenal da Marinha, que seria usada durante o carnaval foi montada toda antes para o Porto realizar seus shows. Isso é dinheiro, a ajuda veio assim. Mas, este ano, devido as mudanças no governo federal e na gestão da cultura estadual, tivemos um ano difícil e solicitamos, pela primeira vez, em cinco edições, alguma evolução na parceira entre o Porto Musical e a PCR, pois estávamos realmente precisando. Mas, ela não pôde ser atendida, apenas um pequeníníssimo valor de última hora foi conseguido. E pensar que o valor solicitado devia ser algo como UM cachê, de UM show, de UM artista que fez o carnaval em UM dos polos.

Mas, voltando ao assunto principal…Fico pensando se as coisas não deveriam ser mais equilibradas. Fazer o carnaval é importante, mas, será que não se deveria diminuir a quantidade de shows? Será que não seria melhor diminuir a quantidade de polos? E o dinheiro que se gastaria com isso se colocaria na Secretaria de Cultura, para ela fomentar projetos importantes ao longo do ano.

Mas, aí, quando falo em diminuir  a quantidade de show para se preservar algum dinheiro pro resto do ano, vocês podem perguntar: mas, como a PCR vai atender todas as solicitações dos grupos, bandas, artistas que desejam tocar no carnaval? É verdade, seria um problema, mas, também acho que enxugar alguns shows para 1 ou 2 de um mesmo artista já é uma forma de se prestigiar todos, seria uma saída. Quando a PCR  veio fechar o show do meu artista, apenas um show, disseram-me  que todas as bandas só iriam fazer apenas um show no carnaval desse ano, achei justo e achei ótimo, significava que mais grupos diferentes se apresentaraim e teriam suas  chances. Mas, não foi bem isso que estava na programação final, alguns vários artistas, fizeram 2, 3, 4 shows. A justificativa varia, ela se aplica em algumas situações, em outras, não.

Mas, voltando pro cerne desse post, tentando concluir pelo menos um dos pensamentos que me assombraram durante este carnaval 2011… Como produtora que sou daqui de Recife, que passo o ano trabalhando em projetos que tentam dar visibilidade a nossa música, a nossa cidade, a nossa cultura, acho um erro estratégico – entre outros tantos que presenciamos neste caranaval, mas, aí são outros posts – gastar tanto dinheiro numa festa só, sem enxergar que tudo na vida é planejamento, continuidade, fomento e sustentação e que existem ações multiplicadoras e fundamentais que vão muito além do entretenimento puro e simples. Essas ações e projetos, infelizmente, ainda precisam e muito de políticas públicas, de fomento e são iniciativas que esperam uma atitude responsável e inteligente sobre como se administra um orçamento, `as vezes já tão escasso.

Prólogo: ficarei esperando ansiosa por comentários e respostas que me digam que estou enganada com isso tudo e que o orçamento para a Cultura da Prefeitura está garantido, independente do “carnaval ter levado tudo” , não faço nenhuma questão de estar equivocada!

03/03/2011

O Porto Musical 2011

Acabou de acabar o Porto Musical 2011. No último dia `a tarde eu sentia um frio estranho na espinha, um vazio estranho no peito. E uma sensação de plenitude diferente. O Porto Musical 2011 foi muito significativo. Foi realmente a edição mais especial de todas.

Quando criamos o Porto Musical, na época eu ainda era da Astronave, criamos tudo junto com a WOMEX, o nome inclusive quem deu foi o Presidente da WOMEX, Christoph Borkowsky. A idéia de fazer antes do carnaval, a simbologia de juntar dois produtos altamente exportáveis de Pernambuco, a música e a tecnologia, e fazer tudo isso na época mais maluca do ano, período de carnaval.

Tínhamos um acordo estratégico inicial que chamamos assim: 2005 – Ano “Ready” ( tudo pronto, vamos fazer) ; 2006 – Ano “Steady” (ok fizemos, ora de se firmar) ; 2007 – Ano “GO” (Ok, firmou, agora vamos pro futuro) . Depois desses 3 anos novamente nos reuniríamos para falar dos próximos 3. Mas, no ano “GO” fomos soterrados pela primeira edição da Feira Música Brasil. Ficamos feridos, sem fôlego, justo no ano mais importante. Caímos, desfalecemos, mas, não morremos. Com muita luta, conseguimos fazer a quarta edição, fora de tempo, fora de época, em junho de 2009. Mas, ela foi bacana também. No entanto, queríamos voltar para os planos iniciais: realizar o Porto Musical antes do carnaval, para isto não dava para fazer em 2010. Nos preparamos e fizemos então a quinta edição agora.

O especial desta edição foi ver que o evento apesar de não ter acontecido nem em 2008 nem em 2010, manteve seu nome e seu atrativo. Conseguimos trazer gente de 10 diferentes países para Recife, muitos ainda estão por aqui e devo encontrá-los em algum bloco, em algum show durante o carnaval. Sem dúvida, o Porto Musical foi muito legal para todos que participaram, para nós que o realizamos e também, para nossa cidade, para nosso Estado. Quem conseguiu perceber isso e aproveitar bem isso, sabe do que estou falando. Lamento que alguns parceiros não souberam aproveitar este momento melhor, lamento por perceber que a única contrapartida que eles tiveram do Porto Musical foi uma logo nas peças do Porto. Uma pena, um desperdício. Lamento por não ter visto eles circulando pelas palestras, por não ter marcado reuniões com eles e gestores, instituições do mundo todo que estiveram aqui e poderiam ter contribuído com um intercâmbio, uma troca de idéia. Lamento por esta visão tão pequena, tão limitada. Queria dar uma contrapartida muito maior aos parceiros que apoiaram o Porto Musical, do que uma simples marquinha no rodapé. Queria contribuir para o acréscimo das perspectivas, para a ampliação das visões. Mas, não posso fazer isso, querendo sozinha. Eles tem que querer também.

De qualquer forma, fica a sensação gostosa de ter visto outros parceiros circulando em todas as conferências, dançando e curtindo os shows, sentando comigo para um café, onde pudemos conversar in loco sobre o futuro do evento, sobre aquela movimentação, sobre os intercâmbios e trocas possíveis. Ficou a sensação feliz e a constatação de que os participantes que vieram por conta própria de outras partes do Brasil e do mundo, curtiram, aprenderam, trocaram e aproveitaram o máximo possível do Porto Musical. Isso tudo me faz ver que o futuro está e deve estar cada vez mais na mão de quem sabe dar valor ao Porto, sabe apreciá-lo e a entender seus objetivos, práticas e charme. Vou parar para pensar como posso cada vez mais depender menos de quem não entende nada disso e depender mais de quem entende o tamanho dessa coisa toda.